“Parece que Augusto Maurer tem tempo de sobra para ficar no Facebook. Pena que não aplique essas ideias no mundo prático nem compareça a reuniões.”
Mundo prático x facebook ? Bem-vindo ao século 21, meu caro amigo.
Alguns preferem reuniões; outros, redes sociais. Fazer o que? Viva a diversidade. Certo é que, sem os últimos, discussões cruciais estariam fadadas a permanecer compartimentadas em nichos estanque entre si e, com isto, instâncias dialógicas essenciais a todo progresso jamais seriam inauguradas. É por isto que aceito de bom grado e até com certa vaidade qualquer culpa por todo esse rebuliço. É claro que, se quiserem, posso substituir todas as metáforas incendiárias das quais me utilizo (“atear fogo”; “riscar fósforos em tanques de gasolina”) por outras mais amigáveis, tais como (obrigado, Claudia Antonini) polinização.
De resto, tenho razões de sobra, tanto exteriores como de cunho íntimo, para me abster de freqüentar reuniões presenciais de qualquer tipo. Dentre as exteriores, se destacam
a drástica redução da interação dialógica pelo estrangulamento de várias vontades discursivas por força da limitação, inerente ao protocolo de toda reunião formal presencial, de apenas uma fala de cada vez. Com isto, se perdem, inevitavelmente, muitas ideias e, o que é pior, as inumeráveis sínteses possíveis decorrentes da colisão caótica entre as mesmas;
há muitas vezes, em agenciamentos deste tipo, um script predeterminado a ser cumprido, garantido pelo poder de concessão e interrupção da palavra exercido por alguma sorte de autoridade investida, tais como presidentes, secretários, coordenadores e afins. Senão, enumerem, rapidamente, reuniões das quais tenham conhecimento que não tenham sido convocadas por alguma instância hierárquica superior.
Já dentre as de foro íntimo, me limito a confessar certa sinceridade irresistível que sempre me acomete quando da paixão do debate e que pode, por vezes, comprometer algum interesse coletivo que eu defenda. Noutras palavras: como, nessas ocasiões, não consigo morder a língua, declino de participar. Simples assim.
Já nos agenciamentos virtuais, sejam eles chats, grupos de discussão ou redes mais amplas que se confundam com as próprias plataformas em que se hospedam, a todos é assegurada a dupla prerrogativa de, a qualquer momento, iniciar e concluir um enunciado. Redes dialógicas virtuais são, assim, adoravelmente anárquicas. Nelas, se dilui a noção de propriedade sobre um discurso, i.e., qualquer ideia pode ser livremente abraçada, defendida e propagada, simultaneamente a outras, desta cacofonia resultando invariavelmente as sínteses mais interessantes. Não acho, pois, nenhum exagero presumir que, num futuro (oxalá !) não muito distante, todo grupo humano organizado esteja numa condição de assembléia permanente em alguma plataforma virtual. Uma das melhores metáforas que já vi para este estado ideal de caos criativo, ainda restrita a contextos presenciais pré-cibernéticos, é a do café, magistralmente formulada por Steven Johnson em seu livro Where good ideas come from, cujo teor é apresentado nesta conferência.
A segunda parte da provocação à qual respondo por meio deste post diz respeito a uma presumível hierarquia entre o mundo das ideias e o pragmatismo. Ora, um e outro são interdependentes e essenciais a todo progresso social, ainda que competências operativas num e noutro raramente sejam encontradas numa mesma pessoa. De sorte que todas as tecnologias derivadas, para o bem ou para o mal, das ideias de Einstein somente se concretizaram muito tempo depois da formulação original de seus fundamentos teóricos.
Então, sempre que me deparo com a absurda dicotomia entre formas teórica e prática de inteligência, lembro logo de um conto genial de Arthur Clarke, autor do argumento que inspirou a Stanley Kubrick a saga 2001, Uma Odisséia no Espaço, abaixo resumido para vosso deleite e ilustração.
Era uma vez um gênio teórico que formulou as bases para a anulação de campos gravitacionais. Quem conhece um pouco de física sabe que não é pouca coisa. Viveu, no entanto, modestamente, à sombra do sucesso empreendedor de um gênio pragmático (espécie de Tony Stark, o Homem de Ferro) que, finalmente, conseguiu construir a primeira máquina de anti-gravidade. Talvez por escárnio, talvez por honestidade intelectual, o gênio prático convidou, então, o gênio teórico para a coletiva de imprensa na qual demonstraria o revolucionário protótipo que consistia, mais ou menos, no seguinte: uma mesa de bilhar com um buraco cilíndrico ao centro, de diâmetro maior do que o de uma bola de bilhar, atravessado por um raio de luz a demarcar uma suposta região de anti-gravidade. Num gesto de reconhecimento (ou, não se sabe ao certo, humilhação), estendeu um taco ao gênio teórico para que disparasse a bola que seria o primeiro quantum de matéria a atravessar um campo onde a atração gravitacional tivesse sido abolida. Ao que o gênio teórico permaneceu pensativo por um instante que pareceu a todos os presentes inexplicavelmente demorado para só então efetuar a histórica tacada – não na direção óbvia do buraco anti-gravitacional mas por uma engenhosa sucessão de tabelas até que a bola “encostou” no limiar do raio de luz a transpassar o buraco, ali permanecendo trêmula por breves instantes até desaparecer com um enorme estrondo. Só o que se viu depois disto foi um buraco cilíndrico fumegante na parede da sala e outro similar atravessando o tronco do gênio prático, que jazia fulminado ao lado da mesa.
Moral da história: cuidado com os homens de ideias.
O conto acima resumido é de Clarke; sua promoção à condição de parábola e a moral inferida, minhas.
Obrigado, então, querido amigo, por tão brilhantemente articular perguntas que eu há muito queria responder (sério: é preciso ser um gênio dialógico para formular com tanta precisão e economia questões tão amplas e [polissêmicas/multifacetadas: escolha de acordo com seu jargão favorito] como as da epígrafe) e que serviram de ensejo para a ressurreição deste blog. Pois, devo admitir, algumas coisas (ainda) não cabem no facebook. Nem em reuniões.

on Apr 25th, 2012 at 3:37 pm
Conheço o Augusto desde 1976. É o cara mais discreto e cordial que eu conheço. Se temos um grande espírito como o dele disponível em texto escrito, a presença física dele é dispensável nos happenings políticos, que nem sempre (para dizer o mínimo) se mostram ambiente receptivo a pessoas discretas e cordiais.