Beethoven foi, senão o primeiro de todos os compositores, ao menos o primeiro dentre os mais importantes a indicar com precisão, nas partituras de suas sinfonias, por meio de indicações metronômicas, os andamentos (tempos) em que seus movimentos deveriam ser executados. Infelizmente, se tornou uma prática corriqueira e culturalmente aceitável executar sua música sinfônica em andamentos bem distintos da intenção do compositor, ao sabor dos caprichos da maioria dos maestros, muitos deles consagrados e, portanto, acima de qualquer suspeita.
Especulando-se sobre as possíveis origens da má prática, se chega rapidamente à evidência exacerbada conferida pela indústria da música (fonográfica e de concertos) às muitas estrelas da batuta que se alternam à frente de tantas orquestras e na direção de um repertório extremamente redundante. Instituiu-se, assim, o mito da “concepção do maestro”, invocado na legitimização de tantas malfeitorias perpetradas contra obras de compositores na maioria das vezes já mortos – consubstanciadas, em grande parte, na não observância da vontade do autor quanto ao tempo de execução de sua música.
O recurso pioneiramente empregado por Beethoven para indicar o andamento em que uma composição deve ser executada foi a atribuição à sua unidade de tempo, convencionalmente chamada de pulso, de um valor correspondente ao número de vezes que o mesmo ocorre durante o intervalo de tempo de um minuto. Tal possibilidade, sem precedentes históricos, foi facultada pela invenção do Metrônomo de Maazel, mecanismo semelhante ao um relógio, capaz de manter constante a frequência de oscilação de um pêndulo – ajustável, por sua vez, mediante o deslocamento de um peso em forma de cursor sobre o raio do pêndulo, dentro de uma faixa que varia de 40 a 208 pulsos (batidas) por minuto, a qual abrange toda a gama de andamentos, do Largo ao Prestissimo, encontrada na música ocidental no período dito de prática comum (do barroco ao tonalismo tardio).
A maior ironia do descaso histórico para com as indicações metronômicas de Beethoven é, sem dúvida, a já popular alegação – mesmo entre segmentos musicais supostamente mais esclarecidos – de que o metrônomo de Beethoven seria defeituoso e que, por esta razão, o compositor teria se equivocado drasticamente, sentenciando suas tão caras sinfonias a gerações de execuções abusivas, justamente ao tentar assegurar para a posteridade a coerência de seus tempos de execução. Imaginem, então, duas premissas mais francamente falsas do que Beethoven não conseguindo encontrar um metrônomo em boas condições de funcionamento em Bonn ou Viena ou mesmo, pasmem, sequer chegar a perceber o mau funcionamento de um !
Nem mesmo suas sinfonias mais conhecidas estão isentas dos efeitos devastadores de batutas caprichosas – como bem observou o grande Herbert Caro ao comparar a duração de um mesmo movimento sinfônico “interpretado” por maestros diferentes (Böhm e Karajan) e, inclusive, por um mesmo maestro em diferentes momentos de sua carreira.
É sobretudo na execução de peças mais obscuras (se é que se pode dizer isto de uma 1ª ou 2ª de Beethoven !) que o estrago em razão de tempos drasticamente alterados (ainda que assim percebidos por músicos, todavia, frustrados e impotentes diante o protocolo da autoridade absoluta da batuta) resulta mais impune.
Afinal, por pior que seja o dano infligido à música de Beethoven ou à motivação de uma orquestra, o maior prejuízo será sempre o do público que, em sua inocência, imputará, com uma boa parcela de razão, às sinfonias juvenis do compositor uma qualidade bastante inferior àquela de suas obras mais maduras.
Eu mesmo, na ignorância e arrogância da juventude, cheguei a considerar as duas primeiras sinfonias de Beethoven (assim como as de Tchaikovsky) como justamente relegadas ao ostracismo. Hoje, tendo, mais do que as imaginado, as ouvido (a partir do movimento restaurador capitaneado por Norrington e outros valentes bretões a partir de meados dos anos 80) em versões bem mais próximas às intenções composicionais, nutro pelas mesmas uma sorte especial de apreço, as tendo, digamos, como dentre as melhores sinfonias de… Haydn.


on Aug 29th, 2011 at 6:55 pm
Seguindo essa lógica, quando Rachmaninoff deixou gravações de suas obras pra piano, isso significa que os pianistas devem imitar essas gravações, tomadas como a indicação literal e explícita das intenções do compositor? Ou só vale quando a indicação está na partitura? Mas a intenção de Beethoven era aprisionar o andamento da obra ou usar um novo recurso da sua época pra padronizar as indicações de andamento? Estar anotado um número específico para o tempo significa uma exigência pontual ou uma indicação aproximada ou tomada como base? E mais: se em uma sinfonia Beethoven anota um número para cada um dos quatro andamentos, seria errado tomar esses números não nos seus valores absolutos, mas nas suas proporções uns com os outros?
on Aug 29th, 2011 at 8:59 pm
Excelentes perguntas, Leonardo, sobre as quais preciso refletir com alguma demora para não responder levianamente.
Aliás, muito bom, também, seu blog http://euterpe.blog.br/, que acabo de conhecer.
Muito obrigado pela enriquecedora visita.
on Aug 29th, 2011 at 9:54 pm
Legal que o pessoal do Euterpe tenha vindo aqui. São bons amigos do PQP.
Em verdade, verdade verdadeira, haveria que contextualizar mais. “Ao sabor dos caprichos da maioria dos maestros, muitos deles consagrados e, portanto, acima de qualquer suspeita”. Esta é uma frase a la Lebrecht, autor que se caracteriza mais por ser prolífico do que… enfim.
O caso é que estamos nos referindo a regentes que estão abaixo (em nossa concepção) e muito acima de qualquer suspeita (em suas próprias convicções) e aí… enfim… fudeu.
on Aug 29th, 2011 at 10:18 pm
Há uma discussão filosófica a respeito da possessão da obra de arte.Numa área abstrata como a música a multiplicidade de interpretações me parece enriquecedora, ficando a cargo do ouvinte o julgamento de gosto. Se uma interpretação comove, entusiasma e convence, adquire vida própria através da personalidade do executante. Isto, a meu ver, não invalida a tese que há muita bobagem por aí.
Um abraço.
on Aug 29th, 2011 at 10:24 pm
Ótima distinção entre a nossa perspectiva e a de “regentes em questão” sobre si próprios. Infelizmente, a distância (ou melhor, a proximidade) me impede de contextualizar melhor, sendo menos evasivo ou eufemístico.
Quanto a Lebrecht, é, sem dúvida, bem prolífico (ou não conseguiria cobrir tão bem o vasto âmbito a que se propõe) – e levado, por isso mesmo, na maioria das vezes a falar bastante por meio de citações.
O que não lhe impede, no entanto, de se posicionar bem claramente nas entrelinhas, com uma sutil ironia que reverbera o espírito iconoclasta de seu precursor ancestral Bernard Shaw.
on Aug 30th, 2011 at 12:05 am
Obrigado, amaurer! Realmente, cheguei por um link do Milton divulgado pelo Facebook.
A questão do metrônomo de Beethoven é mesmo inquietante e vale à pena ser apresentada pra gerar essas ideias.
Sobre essa história de que o metrônomo usado por Beethoven não funcionava como os nossos, o pianista András Schiff, comentando as sonatas de Beethoven em uma série de masterclasses para a BBC, disse que teve a chance de conhecer o tal metrônomo do compositor pessoalmente, e o que ele tinha a dizer é: …que ele funciona! hehe!
Lá no Euterpe foi escrita uma série de posts sobre a “HIP”, a interpretação de época, pela qual respondem o Norrington, como você citou, e tantos outros regentes cujas integrais das sinfonias de Beethoven já ganharam grande parte do público e da crítica, como o Gardiner e o Harnoncourt. Deixo a sugestão de leitura pra situar essa experiência a que você se referiu como “mais do que as imaginado, as ouvido”: http://euterpe.blog.br/historia-da-musica/a-interpretacao-de-epoca-i.
Abraços!
on Aug 30th, 2011 at 1:03 am
Boa lembrança, Leonardo !
E para quem quiser ouvir as sinfonias de Beethoven “restauradas” pelo Harnoncourt, estão todas em
http://pqpbach.opensadorselvagem.org/?s=Beethoven+Harnoncourt