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Carta de apoio da OSPA à OSB

A pedido de membros de ambas as orquestras, traduzo, abaixo, a declaração do apoio estendido pelos músicos da OSPA àqueles da OSB, publicada originalmente em inglês neste blog em 17 último.

* * *

Um empresário ou artista não pode ser julgado justamente por qualquer crítico que não entenda a relevância econômica de lucros e salários. Uma coisa é estabelecer um ideal de perfeição e reclamar quando não é atingido; mas culpar indivíduos por não atingi-los quando isto for economicamente inviável; ou culpar a pessoa errada – por exemplo, culpar o artista por falhas do empresário, ou o empresário por falhas do público – é destruir metade de sua influência como crítico.

George Bernard Shaw, 1894

Coube-me a honra de abordar o processo de reaudições compulsórias da OSB em nome de colegas membros da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre). Minha escolha do idioma inglês para expressar sentimentos que compartilhamos em relação ao injusto, anti-ético e, sobretudo, inútil constrangimento imposto a uma das principais orquestras brasileiras se deve à enorme importância do episódio, acompanhado de perto com atenção crescente por organizações, críticos e jornalistas internacionais, especialmente o escritor britânico Norman Lebrecht, para o futuro balanço das principais forças que afetam o contexto da música erudita.

Muito já foi dito por músicos (instrumentistas e regentes, ainda que os últimos menos do que os primeiros), professores, críticos, jornalistas e representantes do público a respeito dos desdobramentos da atual crise na OSB. Se os olhares do mundo da música estão, deste modo, voltados para este infame evento, isto se deve, além de ao óbvio desrespeito a princípios amplamente aceitos de justiça universalmente aplicados a conjuntos orquestrais, também ao impacto que terá sobre a economia da música como um todo.

Apesar da figura do regente orquestral profissional, controversa por natureza, ser uma ideia muito mais recente do que a própria música orquestral, gradualmente alcançou uma importância exacerbada e indevida ante os olhos de ouvintes leigos principalmente como resultado de estratégias bem sucedidas levadas a cabo pelos detentores de interesse de um negócio assaz lucrativo, a saber, a indústria da música. A luta que hora se trava no Rio é, portanto, muito mais do que por direitos trabalhistas, também por uma mudança cultural no que toca à proporção de responsabilidade por resultados artísticos entre as partes envolvidas no processo de execução de música sinfônica.

As forças em jogo no impasse das reaudições da OSB estão, no momento, nitidamente divididas entre dois campos adversários, a saber, patrocinadores (presumivelmente) e conselho de administração (incluindo o regente titular) de um lado e músicos e (boa parte do) público de outro. A estimulante troca de acusações entre ambos desafia tanto

a ideia, insistentemente promovida por investidores em música, do mito do regente orquestral proficiente como uma “commodity” rara; como

a visão popular da predominância do regente sobre os instrumentistas de uma orquestra no balanço da responsabilidade que compartilham sobre a qualidade resultante no processo de execução de música sinfônica.

Ambos os desequilíbrios acima têm raízes históricas na economia da música, tendo sido alcançados ao longo de décadas de influência de uma outrora poderosa indústria musical largamente dependente do culto às celebridades para tocar seus tão lucrativos negócios. Assim, gravadoras e realizadores de concertos (patrocinadores e empresários) conspiraram para maximizar lucros e controle por meio da deliberada ocultação para o público, ao longo do século 20, do inconveniente fato de que as habilidades necessárias para reger orquestras se encontram, muito mais do que se imagina, perfeitamente ao alcance do músico medianamente proficiente. Noutras palavras, enquanto a maioria dos músicos proficientes, dada a devida oportunidade, se tornariam regentes satisfatórios, a excelência em regência é quase sempre atingida como o coroamento das carreiras dos solistas virtuosos mais brilhantes.

Envolvendo, no entanto, a figura do regente com excessivo glamour, interesses econômicos lograram inverter toda a equação da feitura musical, levando, ao invés, ouvintes comuns a acreditar que reger músicos é, de fato, muito mais difícil do que tocar bem um instrumento. Esta distorção acarreta, é claro, sérias implicações sobre honorários artísticos e direitos autorais. Mais: usurpa das comunidades afetadas o direito e a oportunidade de exercer o necessário controle social sobre a própria qualidade do fazer musical.

* * *

Pelo acima exposto, nós, membros da OSPA, veementemente apoiamos as reivindicações de membros dissidentes da OSB em relação às reaudições compulsórias, relativas não apenas a direitos humanos e condições de trabalho mas, em última instância, ao progresso da direção artística de coletivos musicais em direção à qualidade e à excelência do próprio processo de execução de música sinfônica.

Se você concorda, ao menos em parte, com a argumentação acima, considere assinar a petição online pela imediata suspensão do processo abusivo de reaudições atualmente em andamento na OSB aqui.

1 Comentário on “Carta de apoio da OSPA à OSB”

  1. #1 lira
    on Mar 22nd, 2011 at 12:42 am

    Legal galera, sinto orgulho de um dia ter pertencido a este grupo de musicos com sua atuante associacao.

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