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Comentário a um post de Milton Ribeiro acerca do tempo roubado à leitura

Milton Ribeiro lastimou esses dias não vir dedicando à leitura de grandes romances o mesmo tempo que lograra outrora, atribuindo a situação tanto à saturação informacional promovida pela mídia tradicional como pela aceleração interacional decorrente de nossa crescente imersão em redes relacionais. Num inspirado comentário, elevado por Milton à condição de post, Hélio Paz atribuiu, por sua vez, a perda da capacidade de leitura a um empobrecimento generalizado da educação e explorou detalhadamente a evolução do contexto da criação verbal sob o efeito das novas interações textuais facultadas pelas redes que se engendram na web.

Retomando a questão inicial levantada por Milton, se lemos menos os grandes romances do que antes é por que hoje se publica mais e se escreve melhor. Desta forma, num mundo em que autores e leitores não mais se constituem em categorias mutuamente excludentes, o tempo anteriormente dedicado pelos últimos à leitura é, portanto, realocado entre, de um lado, a leitura de um número maior de fontes menos prolixas e, de outro, a publicação de sua própria escrita. Como resultado, cada vez menos podemos nos dar ao luxo de uma atenção mais demorada a grandes monumentos literários monológicos.

Sob configurações de poder editorial anteriores à web, o privilégio de imprimatur era forçosamente concedido por monopólios comerciais a uns poucos autores, nem sempre em razão de sua qualidade literária mas, em grande parte, de seu potencial para se tornarem best sellers. Neste contexto, a escolha de uma leitura promissora por parte de círculos bibliófilos (que, francamente, nunca tiveram proporções demograficamente expressivas) era um processo relativamente seguro, envolvendo um leque de opções bem mais restrito que o atual e amparado por competentes resenhas publicadas por uma mídia ainda mais restrita. Neste quadro, amantes das letras podiam facilmente se dar ao luxo do abandono a leituras volumosas sem a inquietante sensação de estarem perdendo algo importante. Suponho ainda que fosse, do mesmo modo, mais fácil aos autores se dedicarem por semanas, meses ou mesmo anos a fio à feitura de obras de maiores proporções sem a ruidosa distração da veloz taxa de atualização das visões de mundo atuais.

Há que se considerar, também, que, antes da web, bastava a quem quisesse se sentir informado dedicar uma atenção limitada a um reduzido número de meios de imprensa com cuja linha editorial simpatizasse, restando, com isto, farto tempo para a leitura de grandes volumes; ao passo que hoje o jornalismo cidadão desafia todo leitor a reconfigurar permanentemente seus filtros a fim de aplacar a dupla angústia de garantir o acesso à informação de maior interesse e, ao mesmo tempo, restringir a entrada daquela menos relevante ou simplesmente redundante.

Por tudo isto, é razoável afirmar que, em tempos de web 2.0, tanto a escrita como a leitura se tornam processos não lineares muito mais complexos – daí a estranheza mesmo dos mais argutos com o novo paradigma do tempo como bem escasso.

Sob o crescente adensamento do fluxo de leituras de um lado e a necessária fragmentação do discurso individual a fim de se conectar com os alheios, por vezes perdemos, por pura falta de método ou simplesmente de ferramentas adequadas, fragmentos essenciais a um argumento. Lamento, deste modo, não ter ido a fundo atrás de quem disse, na Campus Party Brasil 2010 (apud @samadeu no Twitter) que o blog é um meio de transição (de que para que ? Múltiplas respostas, certamente). Lamento, igualmente, não haver registrado a origem do aforismo “blogue o mínimo e linque o máximo”.

* * *

Reflexões como as acima pertencem a um novo campo ao qual se convencionou chamar New Literacy – que prefiro não traduzir simplesmente por não me ocorrer nada melhor do que Nova Alfabetização – que se ocupa fundamentalmente dos gêneros de discurso produzidos em blogs e microblogs. A história dos dois formatos é a história da fragmentação do discurso monológico e sua imbricação no indelimitável diálogo em que se constitui a inteligência coletiva. Se o blog inaugurou o diálogo de autores com seus leitores, pelos comentários, e com outros autores, pelos links; a redução de sua complexidade argumentativa à concisão imposta pelo microblog tanto facultou uma difusão do discurso mais rápida e ampla como facilitou em muito o encadeamento de enunciações individuais em redes discursivas coletivas. A apropriação da palavra alheia, antes regida por fortes restrições, se torna mais fluida sob o estatuto dos Creative Commons.

Reflexões como as acima também servem de pretexto ao post inicial deste blog há muito latente (obrigado, Rafael, pela paciência !). Até o ano passado, quando escrevia em tom ensaístico no OPS!, invejava a assiduidade de blogueiros brilhantes, lutando contra o desejo de um blog próprio para o qual não conseguiria, dado meu hábito tão recursivo de escrita, dar a devida atenção.

Hesitei por algum tempo entre muitos possíveis modos de começar um blog sem chegar a qualquer conclusão. Por momentos, estive convicto da vocação eminentemente acadêmica do espaço, dedicado às disciplinas do curso de licenciatura em música a distância para as quais colaboro. Noutros, sucumbi à inexorável possibilidade, virtualmente certeza, de que tudo o que pode ser dito já o foi algures de um modo mais feliz.

E ainda estaria, assim, com meu blog latente até agora não fosse a deixa do Milton, logo abraçada pelo Hélio, acerca do tempo roubado à leitura. Naquele instante, nada se afigurou como mais natural do que começar um blog justamente comentando o conteúdo de outro. Mais: dou-me conta de que todos aqueles possíveis começos entre os quais hesitava também me ocorriam em reação a posts inspiradores lidos alhures. Sob tal constatação reconfortante, resta me acostumar à estética do não acabamento a impor um corte arbitrário ao fluxo discursivo a balizar o interstício entre um post e seu subsequente, torcendo para que uma possível máxima “blogar e coçar, é só começar” se aplique neste caso.

* * *

Update 17/02/10: @jayrosen_nyu esclarece (obrigado !) que a expressão Cover what you do best. Link to the rest. foi cunhada por @jeffjarvis aqui.

7 Comentários on “Comentário a um post de Milton Ribeiro acerca do tempo roubado à leitura”

  1. #1 Rafael Reinehr
    on Feb 17th, 2010 at 6:50 am

    Augusto, seja bem-vindo à Nau. Dizia Vila-Matas: “A literatura, disse-me, está sendo acossada, como nunca tinha sido até agora, pelo mal de Montano, que é uma perigosa doença de mapa geográfico bastante complexo, pois é composta das mais diversas e variadas províncias ou zonas maléficas; uma delas, a mais visível e, talvez, a mais populosa, em todo caso a mais mundana e a mais estúpida, acossa a literatura desde os dias em que escrever romances se converteu no esporte favorito de um número quase infinito de pessoas; dificilmente um diletante se põe a construir edifícios ou, logo de saída, fabrica bicicletas sem ter adquirido uma competência específica; sucede, ao contrário, que todo o mundo, exatamente todo o mundo, sente-se capaz de escrever um romance sem nem sequer ter aprendido os instrumentos mais rudimentares do ofício, e sucede também que o vertiginoso aumento desses escrevinhadores terminou por prejudicar gravemente os leitores, afundados hoje em dia numa notável confusão.”

    A crise, expressada por Vila-Matas, se aplica a muitos dos blogs e dos escritores que por aí estão. Mas não a ti, meu amigo, que musicalmente nos escreve tão valorosa crítica (ou comentário, se assim o preferires).

    Pois bem: a coceira chegou e o blog aí está. Fico honrado por esta história ter começado aqui, neste espaço e neste tempo. Um abraço fraterno.

  2. #2 Afonso
    on Feb 17th, 2010 at 8:43 am

    Parabéns pelo início.

    Havia guardado, desde a leitura do post do Milton, uma pergunta, que faço agora: mas afinal, a quem interessa, atualmente, a leitura dos “grandes clássicos”? Talvez a uns poucos, ainda presos ao paradigma de que homem culto é aquele que conhece os clássicos.

    O debate me parece mais centrado na produção e nas mídias do que no objetivo: quem consome o que se produz e divulga. Todos podem produzir e a tecnologia alcança a midia para todos os que queiram produzir. Mas, quem é este ser “interagente” (Hélio) que consome o mundo atual?

    Me arrisco a dizer que, se até o final do século XX, o homem culto era o que olhava para o passado (grandes clássicos), o homem do séc. XXI é o que olha para o futuro, é aquele que é capaz não de acumular conhecimentos, mas de produzí-los e consumí-los rapidamente. Pergunte aos milhares de trabalhadores do Vale do Silício se leram algum clássico. Talvez um ou outro. No entanto, são eles que produzem, com a rapidez necessária, o mundo que é consumido.

    O tempo é escasso para aqueles que não atualizam seus paradigmas na mesma velocidade das mudanças que a tecnologia nos impõe. Nada contra, por favor, quem queira ler clássicos e sinta prazer com isso, mas volto a perguntar: afinal, a quem interessa, atualmente, a leitura dos “grandes clássicos”?

  3. #3 charlles campos
    on Feb 18th, 2010 at 10:55 am

    Afonso, penso que você abordou a questão por um lado equivocado, tipo “custo e benefício” que uma suposta cultura advinda da leitura dos “grandes clássicos” possa oferecer.

    Os livros, já o foi dito inúmeras vezes e por vários proficientes representantes de quem os escreve, não se prestam a esse propósito de dar um arsenal adequado a quem os ler para ganhar o que os citados profissionais do Vale do Silício ganham em termos financeiros. O livro não é uma apólice de nada, e nem título de capitalização.

    E, ao que me pareceu ao ler seu comentário, você credita um certo esnobismo elitista (defasado) relacionado a esses tais “grandes clássicos”, o que, a meu ver, só existe mesmo por parte de quem arvora o manuseio deles, não de quem efetivamente se dedica a ler a alta literatura por prazer e amor, sem interesses de promoção social.

    Não estou aqui para fazer a defesa do livro, mesmo por que para coisas tão enraizadas em gostos pessoais como leitura, tabaguismo, jazz e troca de casais, o vício dedicado a elas exclui qualquer necessidade de combate às críticas denegridoras. Mas a riqueza econômica de um indívíduo está justo no caminho oposto a da dedicação aos livros, e é um tanto melhor que não se leia muito para conseguir a ascensão social. O nível das conversas amigáveis entre juristas, médicos, advogados e executivos é tão centrada em coisas tais como o novo modelo da Kia Motors, da Nokia, e da prótese de silicone que se pagou para o enchimento da esposa, que as matérias menos práticas e mundanas dos livros só faz a quem os lê e se dedica ao alpinismo social a sensação de um gigantesco asco ao convívio com essas elites.

    Aliás, Afonso, hà uma sociedade pela internet que se presta acerbadamente a motivar adeptos do mundo todo a destruir todo o exemplar de “Dom Quixote” que se encontre pela frente, como vc pode ver no site britânico burnthequixada. As conquistas desta milícia são tantas, que numa cidadezinha costenha do País de Gales, conseguiu-se queimar uma das cinquenta edições originais do Quixote, além de relatórios policiais que confirmam invasões em casas onde notificou-se apenas o sumiço desse famigerado livro.

  4. #4 Afonso
    on Feb 19th, 2010 at 12:48 am

    Meu caro Charlles,

    Vejo-me obrigado a evocar o grande e “clássico” mestre Jack. Vamos por partes. Parágrafo por parágrafo.

    Primeiro, tive a clara intenção de não fazer do comentário mais um post. Logo, e mesmo sabendo que poderia pecar na transmissão de uma idéia, tentei concentrar o tema na pergunta: “a quem interessa, atualmente, a leitura dos ‘grandes clássicos’”?

    Tal, no entanto, parece ter gerado alguma -e agora me utilizo da tua própria expressão – interpretação “equivocada” do meu comentário. Em momento algum me pareceu – e sequer era minha intenção – ter transmitido a ideia de “custo x benefício” que a leitura dos clássicos poderia trazer. Mesmo porque, o tema central é o tempo, ou a falta dele. Os clássicos, numa interpretação bastante pessoal, foram tomados como exemplo, pelo Milton, até por uma questão de “época” de formação.

    Sei bem do que falo, pois somos, eu e o Milton, em quase tudo similares: nascemos no mesmo ano (1957); crescemos e vivemos na mesma cidade (Porto Alegre); frequentamos os mesmos lugares nas mesmas épocas (Jardim de Infância, Primário, Ginásio, Científico – ops, lembra o que seja isso? Tempos em que se estudava Filosofia e Latim na escola; OSPA – dos bons e velhos tempos do Pablo Komlos-, UFRGS – dos bons e velhos tempos de levar cacetada dos brigadianos na João Pessoa, em plena ditadura -, bares, etc. Mas, contrariando a tese de que o mundo é uma aldeia, só nos encontramos 40 anos depois e, pasme, via internet, no mundo virtual), somos (ele, atualmente, muito mais que eu, admito) bibliófilos, amantes da música (ele, atualmente, muito mais do que eu, e nisso nos distanciamos, pois adoro a Sinfonia do Novo Mundo do Dvojak e ele não).

    Mas a vida nos leva, ainda bem, por caminhos diferentes. Mas apenas diferentes, nada mais. Eu resolvi fazer do tempo, há muito tempo, um aliado. E ter o tempo como aliado é definir o padrão de escolhas que fazemos. Sei bem, tanto quanto ele…

    Na sequência, citei, a título de exemplo extremo, o caso dos trabalhadores do Vale do Silício não para que fosse feita a absurda, desculpa a expressão, comparação que fizestes. Acumular cultura versus acumular finanças. “Título de capitalização”? Nada a ver!

    Quanto ao “esnobismo”, sou obrigado a te dar razão. Quem sabe tenhas a capacidade de perceber nuanças de sentimentos na escrita. Mas me eximo de culpa, por tratar-se de, como direi, um certo “inconsciente coletivo” esse uso dessa concepção da cultura dita erudita, clássica. Agora, esnobismo não tem necessariamente a ver com promoçao social, segundo teu dizer. Aqui coloco, claramente, o viés puramente econômico do teu comentário. Que, diga-se de passagem, não foi o foco do meu comentário. Da riqueza cultural como sinônimo de dinheiro, de “ascenção social” (“Mas a riqueza econômica de um indívíduo está justo no caminho oposto a da dedicação aos livros, e é um tanto melhor que não se leia muito para conseguir a ascensão social”), quando na verdade, e só para lembrar, a pergunta foi: a quem interessa, atualmente, a leitura dos clássicos?

    Conheço bem, até por razões de ofício e de relacionamento, o teor das conversas entre pessoas que exercem as profissões que citas. E não é por outra razão: são apenas pessoas, antes de serem profissionais, embora alguns poucos insistam em não acreditar nisso. Mas até nisso são humanos.

    Por fim, Charlles, condeno quem queima livros. Meu livro mais antigo, só para teres ideia, data de 1795. Tá bom assim?

    Mas, e a minha resposta? Só para lembrar: a quem interessa, atualmente, a leitura dos “grandes clássicos”?

  5. #5 charlles campos
    on Feb 19th, 2010 at 11:16 am

    Pode ter sido um mal entendido, Afonso, mas por parte de quem? Não descarto que minha leitura de seu primeiro comentário possa ter sido deficitária,mas ainda sobra a suspeita de sua parcela de culpa. A net requer isso, pois não? Agilidade, um tanto de pouco caso para o que se está escrevendo; uma urgência linguística que preza a mostrar que quem está a escrever é um indivíduo tornado ainda mais cosmopolita pelo uso natural do computador; alguém que não pode escrever usando mais que dois ou três nuances da língua pois tem uma série de atividades cotidianas para realizar, no trabalho, na família, no barzinho no final da tarde. Tenho inveja dos proficientes naquele dialeto de símbolos da net.

    O exposto no parágrafo acima mostra_ para mim, ao menos_, aonde estamos nos dirigindo ao perguntarmos qual a finalidade da leitura dos grandes livros. Uma vez que para vc, um leitor treinado e bibliófilo, esse questionamento é válido, o quanto já não é assunto resolvido para os que valorizam como a maior descoberta o universo virtual? Ou seja: os livros são obsoletos, antissociais, promotores da oligofrênia adulta. Também leio bastante, e tenho a graça de ser independente financeiramente, mas reforço onde quer que esteja que grande parte dos profissionais liberiais de curso superior e funcionários públicos de alta patente são inócuos e tediosos. Já não vou a eventos em que esteja um número determinado destes tipos, e para tais eventos, felizmente, esses tipos já não mais me convidam.

    Tenho dois amigos de mais de 60 anos que é um verdadeiro prazer ficar longas tardes de sábado em suas companhias. Um é um libanês, comerciante falido que mora de favor numa chácara de um grande amigo, já leu de tudo e é um ferino estudioso da baixeza humana. O outro é o caseiro do local onde trabalho, um mineiro voluntarioso, que desenha o nome apenas. Esses dois contrareiam uma frase de Walt Whitman, que diz que as pessoas falam de tudo, menos de si mesmas, vivendo uma vida de imitação. São genuínos, ternos, esotéricos. Já quando tenho que falar com um juíz, ou me consultar com um médico especialista, levo horas para me refazer do vazio na alma que sinto por ter suportado por pouco prazo o peso de suas impressões de importância.

    Mas é válida essa discussão.

  6. #6 charlles campos
    on Feb 19th, 2010 at 11:22 am

    Ah! Belo post, augusto! Só peço que coloque o blog na “Algaravia de blogs”, para facilitar a localização.

  7. #7 miltonribeiro
    on Feb 19th, 2010 at 11:30 am

    Amigos.

    Acho que devemos buscar de algum modo um equilíbrio entre a leitura dos clássicos e a leitura, digamos, secular.

    Pô, é muito importante ler os clássicos. Por algum motivo, os clássicos ultrapassaram suas épocas. Por algum motivo? Ora, pelo motivo de terem sido por longo tempo mais representativos e fiéis à essência do homem do que a de sua época. Claro que é necessária a contemporaneidade, mas penso que é criminoso voltar as costas àquilo que é considerado atemporal.

    Por outro lado, para quem se interessa por literatura como eu, é absolutamente necessário ter uma visão cronológica da imensa rede de influências que ligam as obras e perpassam por elas. Se não for assim, corremos o risco de achar que Marcelino Freire é uma novidade…

    Abraços,

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