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minding orchestras (v): repertoire: Para que servem orquestras hoje ?

No último domingo, o salão de atos da reitoria da UFRGS esteve lotado de pessoas que queriam ouvir música de videogame tocada pela OSPA. Instantes antes do momento mais esperado, se acenderam na platéia (fato inédito) luzes que denunciavam o acionamento de dezenas de câmeras, sem contar telefones celulares, a indicar que aquela performance logo estaria na internet. Passados apenas 3 dias, constato que pelo menos quatro daqueles videos estão no youtube, com um número de visualizações igual ou superior ao de ouvintes presentes ao concerto. Já um único video de uma execução desta peça em 2010 foi mais visto do que todos os videos da reapresentação da mesma no último domingo juntos. Não há como ignorar fatos assim. Com efeito, foi recentemente lançado o primeiro álbum de uma artista que chegou ao  prestigioso selo fonográfico Deutsche Grammophon não por força da bênção de seus altos executivos ou produtores mas, tão somente, por sua impressionante popularidade em redes sociais.

Concertos sinfônicos, salvo quando estrelados por alguma celebridade de certa magnitude, são via de regra ignorados pelo colunismo cultural. Não neste caso. Um simples deslocamento do repertório habitual, tido por muitos como elitista, para um setor da cultura de massa contemporânea tradicionalmente ausente em salas de concerto foi suficiente para desencadear uma onda de interesse midiático, sem precedentes em relação a espetáculos com entrada franca, que resultou em matéria de capa no caderno cultural do principal tablóide local – onde não havia, pasmem, qualquer menção ao fato de que a OSPA também executaria, na mesma ocasião e pela primeira vez em sua história, movimentos de uma sinfonia de Carl Nielsen, autor de alguns dos melhores esforços empreendidos no gênero ao longo de todo o século 20.

O comportamento da mídia, neste caso, não chega a surpreender. Chama, no entanto, a atenção o destaque conferido a duas posições qualificadas contrastantes (como reza a cartilha do decoro jornalístico), sustentadas por dois compositores, ambos professores do Instituto de Artes da UFRGS, um deles enaltecendo e o outro deplorando tal sorte de concessão ao que, por hora, é suficiente designar por “gosto popular”.

Artistas de qualquer época encaram forçosamente, mais cedo ou mais tarde, o dilema entre a autonomia do autor e a aceitação pública. Deste modo, questões como até que ponto pode a arte prescindir do reconhecimento e da aprovação de um público e se a mesma deve ou não, em decorrência, almejar à popularidade ocupam sempre um lugar central no ideário das mentes mais criativas. Emblemáticos deste estado de coisas são, de um lado, o célebre manifesto Who cares if you listen, no qual o compositor Milton Babbitt defende o individualismo exacerbado e hermético autorizado pela recusa praticamente generalizada, entre muitos de seus pares mais proeminentes durante a primeira metade do século 20, às práticas comuns da música tonal – o qual pode ser considerado, sem nenhum exagero, como marco inaugural da era da composição acadêmica (a fascinante trajetória da patronagem, desde a religião e o estado, passando pela burguesia e culminando na academia) – e, de outro, seu corolário imediato, por George Rochberg, em prol de um futuro musical com sons mais palatáveis.

Se hoje a universidade acolhe, segundo o cânone de Babbitt, compositores de laboratório, já as orquestras sinfônicas, estes dinossauros cujo lugar a contemporaneidade parece ainda não ter descoberto, não conseguem almejar a qualquer permanência sem o cultivo cada vez mais dedicado de uma audiência interessada. Surgidas na aurora da civilização urbana e estritamente vinculadas à economia do espetáculo, tratam de se adaptar às velozes, radicais e, até certo ponto, imprevisíveis transformações recentemente sofridas pela indústria do entretenimnento. São muitas as variáveis em jogo. Presencialidade. Autoria. A obliteração da fronteira entre o artista e o público. Impossível enumerá-las em sua totalidade.

Sem bússola nesta tempestade, conjuntos sinfônicos empreendem então esforços desesperados em nome da manutenção de vínculos cada vez mais tênues com ouvintes minguantes, incluindo iniciativas que variam entre as mais conservadoras – tais como executar, ano após ano, as mesmas obras já consagradas pelo público ou, em menor intensidade, explorar enciclopedicamente nichos (muitas vezes acertadamente !) menos freqüentados do repertório de concerto ou, ainda, fomentar a composição de música nova – e outras de caráter mais experimental que consistem, na maioria das vezes, em trazer para as salas de concertos públicos e objetos sonoros que tiveram, historicamente, pouca ou nenhuma afinidade com a plataforma sinfônica.

O que é reconhecido como música é um atributo exclusivo de cada época ou cultura. É comum os mais velhos (tachados, nestes casos, como elitistas) desdenharem do que ouvem os mais moços, quase sempre com base num empobrecimento historicamente perceptível e tecnicamente demonstrável dos objetos artísticos – comportamento que, no entanto, não resolve o problema. À nova rasura que sucede à velha complexidade, é preciso, então, responder com novas relações almejando, com sorte, a novas e belas complexidades.

Menos, Augusto, menos. Em que pese a índole otimista do parágrafo acima, não cabe a mim nem a mais ninguém produzir receitas mas, tão somente, elevar o nível de tolerância à perplexidade face a um caos já instaurado para nele lograr reconhecer novos cenários que, queiramos ou não, chegaram para ficar.

Quando, dias atrás no facebook, iniciei tais ruminações, me declarei inclinado a achar razoável se, depois de versões orquestrais para músicas de videogame, viéssemos a tocar fantasias sinfônicas sobre, por exemplo, jingles publicitários – pois seria, a meu ver, muito mais honesto utilizar equipamentos sinfônicos, públicos ou privados, para tocar realizações artísticas de música composta explicitamente para promover mercadorias – como, aliás, os pregões de feirantes dos quais os primeiros polifonistas se apropriavam para compor complexos motetos – do que, como no caso de quase todo pop (que não reste, aqui, qualquer dúvida sobre estarmos diante de uma franca e estrondosa provocação !), mercadorias promovidas como música.

O metrônomo defeituoso de Beethoven

Beethoven foi, senão o primeiro de todos os compositores, ao menos o primeiro dentre os mais importantes a indicar com precisão, nas partituras de suas sinfonias, por meio de indicações metronômicas, os andamentos (tempos) em que seus movimentos deveriam ser executados. Infelizmente, se tornou uma prática corriqueira e culturalmente aceitável executar sua música sinfônica em andamentos bem distintos da intenção do compositor, ao sabor dos caprichos da maioria dos maestros, muitos deles consagrados e, portanto, acima de qualquer suspeita.

Especulando-se sobre as possíveis origens da má prática, se chega rapidamente à diferenciação exacerbada imposta pela indústria da música (fonográfica e de concertos) às muitas estrelas da batuta que se alternam à frente de tantas orquestras e na direção de um repertório extremamente redundante. Instituiu-se, assim, o mito da “concepção do maestro”, invocado na legitimização de tantas malfeitorias perpetradas contra obras de compositores na maioria das vezes já mortos – consubstanciadas, em grande parte, na não observância da vontade do autor quanto ao tempo de execução de sua música.

O recurso pioneiramente empregado por Beethoven para indicar o andamento em que uma composição deve ser executada foi a atribuição à sua unidade de tempo, convencionalmente chamada de pulso, de um valor correspondente ao número de vezes que o mesmo ocorre durante o intervalo de tempo de um minuto. Tal possibilidade, sem precedentes históricos, foi facultada pela invenção do Metrônomo de Maazel, mecanismo semelhante a um relógio, capaz de manter constante a frequência de oscilação de um pêndulo – ajustável, por sua vez, mediante o deslocamento de um peso em forma de cursor sobre o ráio do pêndulo, dentro de uma faixa que varia de 40 a 208 pulsos (batidas) por minuto, a qual abrange toda a gama de andamentos, do Largo ao Prestissimo, encontrada na música ocidental no período dito de prática comum (do barroco ao tonalismo tardio).

A maior ironia do descaso histórico para com as indicações metronômicas de Beethoven é, sem dúvida, a já popular alegação – mesmo entre segmentos musicais supostamente mais esclarecidos – de que o metrônomo de Beethoven seria defeituoso e que, por esta razão, o compositor teria se equivocado drasticamente, sentenciando suas tão caras sinfonias a gerações de execuções abusivas, justamente ao tentar assegurar para a posteridade a coerência de seus tempos de execução. Imaginem, então, duas premissas mais francamente falsas do que Beethoven não conseguindo encontrar um metrônomo em boas condições de funcionamento em Bonn ou Viena ou mesmo, pasmem, sequer chegar a perceber o mau funcionamento de um !

Nem mesmo suas sinfonias mais conhecidas estão isentas dos efeitos devastadores de batutas caprichosas – como bem observou o grande Herbert Caro ao comparar a duração de um mesmo movimento sinfônico “interpretado” por maestros diferentes (Böhm e Karajan) e, inclusive, por um mesmo maestro em diferentes momentos de sua carreira.

É sobretudo na execução de peças mais obscuras (se é que se pode dizer isto de uma 1ª ou 2ª de Beethoven !) que o estrago em razão de tempos drasticamente alterados (ainda que assim percebidos por músicos, todavia, frustrados e impotentes diante o protocolo da autoridade absoluta da batuta) resulta mais impune.

Afinal, por pior que seja o dano infligido à música de Beethoven ou à motivação de uma orquestra, o maior prejuízo será sempre o do público que, em sua inocência, imputará, com uma boa parcela de razão, às sinfonias juvenis do compositor uma qualidade bastante inferior àquela de suas obras mais maduras.

Eu mesmo, na ignorância e arrogância da juventude, cheguei a considerar as duas primeiras sinfonias de Beethoven (assim como as de Tchaikovski) como justamente relegadas ao ostracismo. Hoje, tendo, mais do que as imaginado, as ouvido (a partir do movimento restaurador capitaneado por Norrington e outros valentes bretões a partir de meados dos anos 80) em versões bem mais próximas às intenções composicionais, nutro pelas mesmas uma sorte especial de apreço, as tendo, digamos, como dentre as melhores sinfonias de… Haydn.

Uma antiga paixão por literatura de ficção científica

Este é um blog hibernante por que seu autor prefere comentar em outros blogs do que, propriamente, blogar. Deste modo, não fosse a pane do blogger, que frustrou temporariamente minha intenção de ampliar um comentário que já fizera a um post em Sapatinhos Vermelhos, de Nikelen Witter, dificilmente me encontraria agora sacudindo a poeira deste aqui tão somente para amealhar souvenirs da sorte de literatura fantástica popularmente conhecida como ficção científica. Por partes, então.

Meras alusões ao gênio de Asimov e Bradbury e o reconhecimento da supremacia de Clarke foram suficientes para me trazer a lembrança, no primeiro comentário,  o conto A Sentinela, de Clarke, onde Kubrick buscou inspiração para o enredo de 2001; as novelas Cat’s Craddle, de Vonnegutt, e A Guerra das Salamandras, de Capek; legados de precursores como Poe e Lovecraft e, como não elencar,  a saudosa Coleção Argonauta.

No entusiasmo do comentário (conhecem gesto mais impulsivo do que comentar na web ?), confundi o tcheco Karel Capek com os irmãos soviéticos Boris e Arkady Strugatsky, cuja fantasia se estendia a domínios tão abstratos quanto os da matemática ou da metafísica, autores das novelas Certamente, Talvez e Roadside Picnic, adaptada por Tarkovsky em Stalker.

Quando, neste breve período (ca. 48 horas), também tomei ciência, por meio de uma resenha de Doctorow sobre Napier’s Bones (novela de estréia, de índole matemática, do canadense Derryl Purphy), de pronto a relacionei ao fundo teórico-fantástico da trama de Certamente, Talvez.

Foi, portanto, para que todas estas reminiscências não se perdessem para sempre,  como as memórias do andróide terminal em Blade Runner, que lavrei este post.

E teria ficado por aqui não fosse ter descoberto, agora há pouco e meramente por acaso, o apreço de Pedro pelo filme Eu Robô. Quando perguntou se robôs poderiam efetivamente dominar o mundo, lhe respondi que já dominavam. Não pela imposição da força, como no filme, mas pacificamente, de forma consentida e mesmo incentivada pelo homem, em razão do uso crescente de robôs afetivos, desde suas formas mais primitivas como tamagotchis, puffles ou animais domésticos até andróides especializados em atenção a crianças ou idosos.

Amanhã preciso lembrar de contar a Pedro quem foi Asimov. Para saber mais sobre o avanço silencioso e inexorável da robótica afetiva, vale cada minuto da palestra que Sherry Turkle (MIT, autora de Alone Together) proferiu no Google.

Em poucas palavras (i): São Bento do Sul, SC

Vista parcial do exterior do pólo da UDESC em São Bento do Sul, SC, onde se realiza o seminário integrador presencial do curso de licenciatura em música  a distância da UFRGS.

Acesso ao andar inferior do pólo.

Acesso ao andar superior.

Vistas parciais do andar superior: estações de teclado e informática.

Alojamentos.

Local em que pratiquei à clarineta.

A razão de tudo isto.

Principais referências utilizadas ou recomendadas durante o seminário.

Da batata suiça como obra de arte no Schlitz, em São Bento do Sul, SC

Desde ontem imerso na densa e desafiadora atmosfera dos seminários integradores presenciais do curso de licenciatura em música a distância da UFRGS, arrisco alguma reconciliação com a escrita em breve incursão pelo tão apaixonante, em que pese menos inflamado, território da crônica culinária.

Aficcionado, desde tempos imemoriais, à boa mesa, busco distração da solidão das noites em (raras) viagens de trabalho explorando cozinhas locais. São Bento do Sul, SC. Depois de uma tão competente quanto inesperada (numa região de colonização eminentemente germânica) pizza assada em forno a lenha, fui gentilmente encaminhado por uma professora anfitriã a um aprazível restaurante, aconchegantemente decorado e com música não invasiva, conhecido por Schlitz. Resumidamente: cervejas artesanais, com destaque para a linha completa da Eisenbahn e chopps claro e escuro de Pomerode, secundadas por notável elenco de especialidades alemãs e internacionais, com destaque para salsichas e mostardas (que eu nunca havia misturado com raiz forte !) e a batata suíça literalmente elevada à condição de prato principal. Em várias versões. Elegi de pronto a marguerita. Ainda sinto o aroma do ramo de manjericão fresco sobre a batata precisamente al dente. Ornada por um anel de pimenta rosa.

Voltarei sob o pretexto de tirar fotos. E conhecer o chopp escuro, é claro.

* * *

Atualizado (como prometi) em quatro de maio.


Carta de apoio da OSPA à OSB

A pedido de membros de ambas as orquestras, traduzo, abaixo, a declaração do apoio estendido pelos músicos da OSPA àqueles da OSB, publicada originalmente em inglês neste blog em 17 último.

* * *

Um empresário ou artista não pode ser julgado justamente por qualquer crítico que não entenda a relevância econômica de lucros e salários. Uma coisa é estabelecer um ideal de perfeição e reclamar quando não é atingido; mas culpar indivíduos por não atingi-los quando isto for economicamente inviável; ou culpar a pessoa errada – por exemplo, culpar o artista por falhas do empresário, ou o empresário por falhas do público – é destruir metade de sua influência como crítico.

George Bernard Shaw, 1894

Coube-me a honra de abordar o processo de reaudições compulsórias da OSB em nome de colegas membros da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre). Minha escolha do idioma inglês para expressar sentimentos que compartilhamos em relação ao injusto, anti-ético e, sobretudo, inútil constrangimento imposto a uma das principais orquestras brasileiras se deve à enorme importância do episódio, acompanhado de perto com atenção crescente por organizações, críticos e jornalistas internacionais, especialmente o escritor britânico Norman Lebrecht, para o futuro balanço das principais forças que afetam o contexto da música erudita.

Muito já foi dito por músicos (instrumentistas e regentes, ainda que os últimos menos do que os primeiros), professores, críticos, jornalistas e representantes do público a respeito dos desdobramentos da atual crise na OSB. Se os olhares do mundo da música estão, deste modo, voltados para este infame evento, isto se deve, além de ao óbvio desrespeito a princípios amplamente aceitos de justiça universalmente aplicados a conjuntos orquestrais, também ao impacto que terá sobre a economia da música como um todo.

Apesar da figura do regente orquestral profissional, controversa por natureza, ser uma ideia muito mais recente do que a própria música orquestral, gradualmente alcançou uma importância exacerbada e indevida ante os olhos de ouvintes leigos principalmente como resultado de estratégias bem sucedidas levadas a cabo pelos detentores de interesse de um negócio assaz lucrativo, a saber, a indústria da música. A luta que hora se trava no Rio é, portanto, muito mais do que por direitos trabalhistas, também por uma mudança cultural no que toca à proporção de responsabilidade por resultados artísticos entre as partes envolvidas no processo de execução de música sinfônica.

As forças em jogo no impasse das reaudições da OSB estão, no momento, nitidamente divididas entre dois campos adversários, a saber, patrocinadores (presumivelmente) e conselho de administração (incluindo o regente titular) de um lado e músicos e (boa parte do) público de outro. A estimulante troca de acusações entre ambos desafia tanto

a ideia, insistentemente promovida por investidores em música, do mito do regente orquestral proficiente como uma “commodity” rara; como

a visão popular da predominância do regente sobre os instrumentistas de uma orquestra no balanço da responsabilidade que compartilham sobre a qualidade resultante no processo de execução de música sinfônica.

Ambos os desequilíbrios acima têm raízes históricas na economia da música, tendo sido alcançados ao longo de décadas de influência de uma outrora poderosa indústria musical largamente dependente do culto às celebridades para tocar seus tão lucrativos negócios. Assim, gravadoras e realizadores de concertos (patrocinadores e empresários) conspiraram para maximizar lucros e controle por meio da deliberada ocultação para o público, ao longo do século 20, do inconveniente fato de que as habilidades necessárias para reger orquestras se encontram, muito mais do que se imagina, perfeitamente ao alcance do músico medianamente proficiente. Noutras palavras, enquanto a maioria dos músicos proficientes, dada a devida oportunidade, se tornariam regentes satisfatórios, a excelência em regência é quase sempre atingida como o coroamento das carreiras dos solistas virtuosos mais brilhantes.

Envolvendo, no entanto, a figura do regente com excessivo glamour, interesses econômicos lograram inverter toda a equação da feitura musical, levando, ao invés, ouvintes comuns a acreditar que reger músicos é, de fato, muito mais difícil do que tocar bem um instrumento. Esta distorção acarreta, é claro, sérias implicações sobre honorários artísticos e direitos autorais. Mais: usurpa das comunidades afetadas o direito e a oportunidade de exercer o necessário controle social sobre a própria qualidade do fazer musical.

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Pelo acima exposto, nós, membros da OSPA, veementemente apoiamos as reivindicações de membros dissidentes da OSB em relação às reaudições compulsórias, relativas não apenas a direitos humanos e condições de trabalho mas, em última instância, ao progresso da direção artística de coletivos musicais em direção à qualidade e à excelência do próprio processo de execução de música sinfônica.

Se você concorda, ao menos em parte, com a argumentação acima, considere assinar a petição online pela imediata suspensão do processo abusivo de reaudições atualmente em andamento na OSB aqui.

Minding orchestras (iii): OSPA’s letter of support to OSB: Norman ain’t no fool, or Why is the boycott to OSB reauditions so important ?

A manager or an artist cannot be judged fairly by any critic who does not understand the economic bearings of profits and salaries. It is one thing to set up an ideal of perfection and complain as long as it is not reached; but to blame individuals for not reaching it when it is economically unattainable, instead of blaming the conditions which make it unattainable; or to blame the wrong person – for instance, to blame the artist when the fault is the manager’s, or the manager when the fault is the public’s – is to destroy half your influence as a critic.

George Bernard Shaw, 1894

I’ve been distinguished with the honor of addressing the process of OSB’s mandatory reauditions on behalf of fellow members of OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Brazil). My choice of English as a primary language to express our shared feelings on the unfair, unethical and, ultimately, useless request imposed on one of Brazil’s foremost orchestras is due to the paramount importance of the episode, closely followed with growing attention by international music organizations, critics and journalists, notably the british writer Norman Lebrecht, to the future balance of the shaping forces affecting the classical music scene.

Much has already been said by musicians (player and conductors alike, despite the laters not so often), professors, critics, jounalists and members of the audience regarding the unfolding crisis at OSB. If the eyes or the music world are thereby turned to this otherwise unfortunate event, besides to its blatant disregard for widely accepted principles of fairness universally apllied towards orchestral ensembles, it has also to do with the impact to be felt on music economics as a whole from those disruptive facts.

Despite the figure of the professional orchestral conductor, controversial by nature, being much more recent an idea than orchestral music on itself, it has gradually gained undue importance before the eyes of common listeners mostly as a result of well targeted strategies carried by shareholders of a very profitable business, namely, the music industry. The fight under way in Rio is, therefore, much more than a battle for working rights, one for a cultural change regarding the proportion or responsibilities by parts involved in symphonic music making over artistic results.

Forces involved in OSB’s reauditions impasse are, by now, clearly divided into well delineated opposing fields, namely, sponsors (supposedly) and administration board (including principal conductor) at one side and musicians and (most of) the audience at the other. The stimulating exchange of sharp viewpoints between them challenges both

the idea, insistently promoted by music investors, of the myth of proficient orchestral conducting as a scarce commodity; as well as

the popular view of a prominence of conductor over orchestral players in the balance of shared responsibility for resulting quality in the process of symphonic music making.

Both above unbalances are historically rooted on music economics, having been achieved along decades of influence of a formerly powerful music industry which relied heavily on the cult of celebrities to run its much profitable business. Accordingly, record labels and concert investors (sponsors and managers) conspired to maximize profits and control by means of deliberately blurring to the audiences, throughout the twentieth century, the inconvenient fact that the required skills to conduct orchestral forces are, more often than not, perfectly within reach to the average proficient musician. In other words, while most proficient musician, given the proper opportunities, would turn into  good (acceptable) conductors, superb conducting is almost always achieved as the crowning of virtuoso soloist’s careers.

By surrounding, otherwise, the figure of the conductor with overdue glamour, economic interest have inverted the whole music making equation, leading, instead, common listeners to believe that conducting musicians is, indeed, much harder than well playing an instrument. This distortion has, of course, heavy implications in wages and copyright issues. Further, it arrogates from music communities the right and the opportunity to seize the necessary social control over the very quality of music making.

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For all above, we at OSPA strongly support the claims of the insurgent members of OSB against the imposed reauditions, concerning not only the human rights and working conditions involved but, ultimately, the progress of music collectives towards the utmost quality in music making.

If you agree, at least partially, to the above argument, please consider signing the online petition for the immediate suspension of the abusive process of reauditions currently underway at OSB here.

Minding orchestras (ii): qual o melhor enredo de música brasileira no carnaval 2011: Martins na Vai-Vai ou Minczuk na OSB ?

O que da música brasileira tida como erudita mais repercutiu internacionalmente durante os dias de carnaval em 2011 ?

a) a vitória da escola de samba Vai-Vai no carnaval paulista tendo por enredo a comovente e edificante saga do outrora virtuose do piano e novo maestro João Carlos Martins; ou

b) as controversas reaudições impostas aos músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira por seu atual diretor artístico, outrora virtuose da trompa, Roberto Minczuk ?

Depende da ótica. Se for na do jornalimo global e todo o que vai em sua esteira, pode parecer que, ao menos antes da apuração dos resultados do carnaval carioca, a história de auto-superação da incapacidade experimentada pelo músico que já foi considerado um dos maiores intérpretes da música de J. S. Bach, cantada em samba pela Vai-Vai, tenha polarizado todo o interesse midiático.

Não é esta, no entanto, a percepção que se tem das coisas ao ler a crônica do talvez mais célebre crítico da cena musical “erudita” contemporânea, o controverso e irreverente Norman Lebrecht que, nada menos do que seis vezes entre o domingo de carnaval e a quarta-feira de cinzas, dedicou sua coluna à cobertura do drama vivido pela OSB.

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Update 1: logo que publiquei as linhas acima e xinguei no Twitter a precária cobertura jornalística brasileira do affair Minczuk X OSB, soube, via @sergiobarr, da matéria publicada hoje no Estadão dando conta de sua repercussão internacional, com destaque para a crônica de Lebrecht e sua ênfase na crescente importância das mídias sociais nas negociações entre músicos e gestores de corpos orquestrais.

Update 2: uma entrevista de Minczuk à Veja e as vozes de peso de Ole Bohn, Paulo Sérgio Santos e Norton Morozowicz. Via Eduardo Monteiro, pelo Facebook.

Update 3 (10/3): Lebrech volta à carga aqui, aqui, aqui e aqui. enquanto David Chew, Nigel Shore, Russel Guyver, Paulo Rogerio Arantes e Harold Emert se juntam ao coro. Via Eduarto Monteiro e Helinho Rodrigues, pelo Facebook.

Update 4 (11/3): enquanto a OSB demite um violinista de 78 anos, seus assinantes rompem o silêncio.

Minding orchestras: crises em Detroit, São Paulo e Rio de Janeiro; ópera em 3D e uma nova sala de concertos em Nova Iorque

Por força das redes tecidas com grandes amigos descobertos no trabalho, acabei me tornando uma espécie de antena em fina sintonia com as vibrações produzidas pela tensão da vida e da arte em corpos sinfônicos. Venho, assim, recolhendo hordas de links para fatos marcantes de orquestras de todo o planeta que, em conjunto, contam histórias, mostram padrões e apontam caminhos. Dentre as histórias mais instrutivas e fascinantes sobre a esfera orquestral que a web ou, melhor, minhas PLNs me trazem, vale destacar

a tragédia anunciada da decadência da outrora importante (ainda que não uma das “cinco grandes” americanas, i.e., NY, Boston, Chicago, Cleveland e… Filadélfia, creio) Detroit Symphony Orchestra, cujos músicos, depois de meses de tentativas fracassadas de renegociação salarial em que chegaram a abrir mão de 22% dos vencimentos, começam a se dispersar;

do Metropolitan Opera de Nova Iorque inaugurando um sistema de transmissão ao vivo de óperas em 3D para uma rede global de cinemas; como sou quase totalmente ignorante em matéria de ópera, prefiro lhes deixar, aqui, com ótimas histórias sobre escutar ópera por André Egg e Milton Ribeiro;

da inauguração de mais uma sala sinfônica em Nova Iorque enquanto, em Porto Alegre, ainda se perde tempo questionando a vocação sinfônica da primeira (!) sala de concertos a ser construída na cidade. Sobre este ridículo porém necessário debate, porquanto esclarededor à sociedade, deixo para me posicionar quando diante de uma audiência maior ou, preferivelmente, até me calar – pois minha proximidade, neste caso, ao objeto da discussão pode prejudicar minha perspectiva de observação. Sobre o tema, é, pois, suficiente dizer que Celso Loureiro Chaves, Marcos Abreu, Milton Ribeiro e muitos músicos qualificados se dedicam, na mídia e em redes sociais, com propriedade técnica e até alguma graça literária, na mídia e em redes sociais, à defesa da excelência acústica do projeto do futuro teatro da OSPA;

da renúncia, por parte de Alex Klein, da direção artística da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo;

da atual crise da OSB.

De tudo isto, aprendi que notícias e discussões sobre orquestras tendem facilmente a se disseminar em proporções virais. Como, por exemplo, nas dezenas de inspirados comentários postados em pouquíssimas horas sobre fatos relevantes à manutenção e melhoria dos conjuntos, como se vê claramente na matéria do Guardian sobre a DSO ou, ainda, nas cartas abertas (e bilíngues !) de Alex Klein e Eduardo Monteiro - btw, my newest FB “friends” (Have I heard anything about the inherent weakness of socialnetwork ties ?), respectivamente, a Roberto Minczuk e à Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem.

Quando, comentando a carta de Klein a Minczuk, questionei a real noção que a Municipal teria da estatura do diretor artístico que descartara, fui pronta e elegantemente corrigido por Klein, que disse não ter sido descartado mas, sim, renunciado ao cargo para, aí sim, ter ser demitido da função de regente titular. A triste ironia é que, descartado ou não, Klein fará muito mais falta à Municipal do que esta ao primeiro.

Mas como nem tudo é desesperante na cena sinfônica brasileira, pretendia lhes deixar com a nova titular da OSESP Marin Alsop à frente da lendária Concetgebow tocando (!) uma suíte de jazz de Shostakovish (via @Serjones, creio). Infelizmente, no entanto, o video foi retirado do YouTube por violação de direitos autorais. Ainda somos pré-históricos.

* * *

Update 1: minutos depois da publicação acima, me chega, por meio de Samuel Oliveira (clarineta, OSPA), o desabafo de Neschling, ofendido com o texto de Klein. Boa diversão.

Políticos demais (ii): pelo fim do político profissional e da propaganda eleitoral

Circula por estes dias a notícia de que o parlamento brasileiro finalmente se debruçará sobre a importante, complexa e delicada questão da reforma política. Ora, nenhuma reforma política que se preze deve emanar de câmaras legislativas, elas próprias detentoras de insidiosos privilégios e prerrogativas os quais, estes sim, deveriam ser alvos prioritários de todo esforço em direção ao aprimoramento da gestão pública.

Cai, então, desta forma, de maduro que a iniciativa e a condução de quaisquer reformas das instituições públicas deva partir não do congresso, como se pretende, mas da própria sociedade organizada, seja por meio de consultas populares ou de uma constituinte exclusiva.

Isto por que qualquer reforma orquestrada por políticos atualmente eleitos para compor câmaras legislativas muito provavelmente subestimará ou mesmo desdenhará o binômio responsável pelo clientelismo político e demais vícios do estado como hoje se conhece, a saber, a persistência, em plena era das revoluções digitais, das figuras anacrônicas e obsoletas do político profissional e da propaganda eleitoral.

Ora, diante do novo complexo tecnológico de facilidades para consultas amplas e debates horizontais envolvendo toda a sociedade, não são mais concebíveis e admissíveis

a delegação, por parte de cidadãos, de poderes para legislar e governar a políticos profissionais regiamente remunerados com recursos públicos, via de regra distantes daqueles que mais deveriam representar e submissos, quase sempre, a interesses oligárquicos de partidos políticos e lobbies corporativos;

a realização, antes dos pleitos eleitorais, de campanhas políticas fundadas sobre publicidade midiática e unilateral quando tecnologias da informação já facultam ao próprio eleitor os meios e a independência necessários para pesquisar e, efetivamente, debater sobre proposições e candidatos.

Neste quadro, urge que a sociedade tome a si as rédeas da reforma que hora se começa a urdir nos escusos meandros do congresso.

Cabe, também, quando se trama mais um assalto à nação brasileira sob a forma do pretendido financiamento público das campanhas políticas, chamar a atenção para a ideia, defendida por Lawrence Lessig (eminente professor da Harvard Law School, estudioso da cultura digital e inventor das licenças Creative Commons, hoje devotado à causa da erradicação da corrupção na política), de que campanhas políticas devam ser custeadas apenas por meio de pequenas contribuições voluntárias de cidadãos, se eliminando, assim, na raíz a perversa influência de interesses corporativos, por meio de lobbies, sobre governos e parlamentos. As ideias de Lessig sobre a erradicação da corrupção por meio de pequenas (“small dollar”) doações, limitadas, no caso, a US$ 100 por cidadão, se encontram sedimentadas na organização Fix Congress First.

Enquanto isto, propostas para regulamentar a ação de lobbies não causam, pasmem, qualquer escândalo por aqui – me levando, inevitavelmente, a pensar que talvez tenhamos, afinal, os políticos que merecemos. Tomara que eu esteja errado.

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O texto acima sintetiza dois ensaios publicados originalmente n’O Pensador Selvagem antes da inauguração deste blog.