Rather than approaching teens and telling them how things should be […], please consider the value of opening up a dialogue. The key to guiding teens – and for that matter, yourselves – is to start by asking questions. Start these conversations when your children are young and help them learn how to evolve. There’s no formula for them either.
Boyd, Danah. 2010. “Making Sense of Privacy and Publicity.” SXSW. Austin, Texas, March 13.
No ano passado, era comum que meus filhos travassem, a caminho da escola, acirradas disputas sobre se ouviríamos música (quase sempre a versão instrumental de Está Chovendo na Roseira pelo trio de Hamleto Stamato) ou o Cafezinho. Foi durante uma performance ao vivo não muito feliz de uma banda pop local no outrossim divertido programa que o mais velho, então com 8 anos, me perguntou se não cabia às estações de rádio escolher as melhores músicas para seus ouvintes. Expliquei-lhe, então, do melhor modo que pude, que a prática mais corrente consistia, ao invés, em tocar o que quisessem que os ouvintes consumissem, em atendimento aos interesses de uma lucrativa indústria. Por acaso tinha comigo na ocasião um CD da Chicago inteiramente dedicado a Duke Ellington que logo reproduzi no carro – de sorte que Caravan (com sua contagiante condução rítmica latina) se tornou, por algum tempo e ao lado de Chovendo na Roseira, um clássico a caminho da escola. Na ocasião, desejaram pela primeira vez possuir aparelhos tocadores de mp3, com os quais me apressei em lhes presentear. Também foi quando o menor, então com 5 anos, levantou a questão, à qual voltaremos adiante, sobre se seria possível baixar e ouvir em iPods músicas de videogames.
Foi, no entanto, somente depois de uma paciente desconstrução de sua noção, adquirida por meio das mensagens publicitárias anti-pirataria inseridas no início de DVDs comerciais, de uma certa natureza criminosa do ato de baixar músicas da web que mergulhamos num de nossos mais lúdicos e educativos campos de troca até hoje. É claro que, de início, não consegui lhes mostrar qualquer música de meu repertório auditivo (prerrogativa que, francamente, exerço muito pouco) sem antes ouvir atentamente toda música que quisessem me mostrar.
Primeiro foram trilhas de filmes e seriados e, é claro, hits de celebridades pop. Confesso o profundo alívio que senti no instante em que deletaram, quase tão rápido quanto baixaram, a música de Camp Rock e das sagas juvenis High School Musical e Crepúsculo, bem como todos os álbuns do então recém morto Michael Jackson exceto Thriller. Foi quando pude constatar que seu interesse por Thriller advinha exclusivamente de seu célebre videoclip. Afinal, toda criança tem uma queda irresistível por zumbis, monstros e vampiros. E dinossauros. Saciada a curiosidade em torno de MJ, descobriram Elvis. De seu breve affair com a música dos dois astros resultaram insights interessantes.
Quando o mais velho quis saber as razões por trás da estranha voz de Michael ao tempo dos Jackson Five, lhe disse tratar-se de uma criança – ao que prontamente me respondeu que mulheres, e não crianças, cantavam daquele modo. Já o menor nunca compreendeu por que Beat It pertencia a Michael se, naquela música, o guitarrista (Van Halen) era de longe muito melhor do que o cantor. Enquanto espero que ele cresça um pouco mais para lhe explicar a insidiosa manipulação pela indústria e pela mídia das audiências de celebridades pop, fui brindado com sua própria explicação, a saber, de que o abismo entre a qualidade musical de Michael e sua proeminência exacerbada se devia, antes, aos maus tratos sofridos em decorrência da obstinação de seu pai por lhe transformar num pop star.
Já a descoberta da mais exuberante vertente de música para cinema adveio da obsessão do mais velho por Tubarão e sua antológica trilha sonora composta por John Williams. Depois de Jaws, foram horas deliciosas que passamos pesquisando, baixando e selecionando os pontos culminantes da música de Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, E.T. e Jurassic Park. De nossa diligente exploração da musicografia de Williams também resultaram achados curiosos.
Quando o mais velho verificou nos créditos de Valiant que sua música também fora composta por Williams, o menor se apressou em declarar que a mesma era sobre esperança e espírito de aventura. E quando um deles reconheceu na música de Tubarão (1975) ecos indiscutíveis daquela de Psicose (19960), fui de pronto levado a baixá-la e a constatar que Williams se valera para a gravação da trilha de Tubarão da mesma Scottish Chamber Orchestra que registrara a icônica música de Bernard Herrmann para Psicose – esta, por sua vez, claramente derivada da linguagem para cordas de Bela Bártok.
E chegamos, como prometido, à música dos games. Para quem, como eu, foi criado alheio ao universo dos jogos eletrônicos, não deixa de ser curioso como uma música sem forma reconhecível, resultante da justaposição de loops controlada pelo avanço aleatório do jogador ao longo das fases de um jogo, possa se constituir, quando descontextualizada, em um objeto de audição autônoma. Como, por princípio, não questiono o que meus filhos querem ouvir (nem mesmo os mais sórdidos remixes no YouTube), espero o momento mais oportuno para lhes auscultar a motivação – que, felizmente, nunca tarda a emergir. Neste caso, disseram que preferiam ouvir a música sem a incômoda concorrência de falas e ruídos dos próprios jogos – percebendo, também, como vantagem a possibilidade do conhecimento de toda a música de um jogo previamente a superação lenta e gradual de cada uma de suas fazes.
Um dos maiores benefícios que percebo na escuta compartilhada com meus filhos de trilhas de filmes, games e seriados deslocadas de seus contextos é que as mesmas, devidamente curadas, se constituem em excelentes subsídios educativos. Comparando trilhas e remixes, compreenderam que a diferentes músicas podem corresponder diferentes estados emocionais. Também foi assim que perceberam a superioridade de música executada por orquestras e outros conjuntos instrumentais ou vocais sobre aquela a que identificam como eletrônica. Ao manifestar a professoras de música mais jovens do que eu o realismo das trilhas orquestrais de certos games que eu supunha sintetizadas, me disseram para que não duvidasse de que tivessem sido, efetivamente, executadas por orquestras.
Depois disso, não me surpreendi nem um pouco quando meu filhos quiseram pela primeira vez voluntariamente ir a um concerto tão somente para ouvir música de John Williams. Acabaram por também ouvir a de Lalo Schifrin para o seriado Missão Impossível. Quando, então, lhes baixei a dos filmes homônimos (com compassos “facilitados” de 4/4), constataram que era bem inferior à do seriado original (em compassos de 5/4). O que, aliás, faz pensar no que esperar, na transposição cinematográfica do seriado Hawaii 5.0, de seu antológico tema de abertura.
Foi ainda durante esse concerto que o mais velho me perguntou se muitas pessoas conheciam a OSPA, pela qual designa genericamente qualquer orquestra. Em sua idade, celebridade ainda lhe parece algo naturalmente importante. Temendo decepcioná-lo, informei que não. Quis saber, então, por que uma música tão boa era menos conhecida do que outras notoriamente piores. Tentei lhe explicar o efeito predatório e nefasto do pop e da mídia sobre a diversidade e a qualidade musical. Ele achou aquela situação muito triste. Naquele instante, lhe convidei para irmos juntos a um concerto para sua primeira audição da Terceira Sinfonia (Eroica) de Beethoven.
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Publicado em 7 de agosto de 2010 no caderno Cultura do jornal Zero Hora, o texto acima ganhou forma a partir de um convite de seu editor Luiz Antônio Araújo para que eu desenvolvesse a ideia originalmente publicada neste blog sob o título Música em Família.