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Para ouvir Groundation; ou Reggae para quem nunca gostou de reggae

Estar no lugar certo na hora certa tem lá suas vantagens. Foi anos atrás, durante um intervalo de uma gravação que produzi e na qual também toquei de uma versão (dita psicótica) de Prenda Minha por Arthur de Faria, seu Conjunto e convidados, que o grande técnico de som Gustavo Breier me apresentou Groundation. Até então, eu nunca tinha gostado do pouco reggae que chegara a ouvir acidentalmente. Ainda não acostumado à comodidade e conveniência do filesharing, guardei a preciosa informação por vários anos até que, dias atrás, a partir de uma busca com o sempre mui valioso Captain Crawl (obrigado outra vez, Bernardo), baixei dois de seus álbuns: We Free Again (2004) e Here I Am (2009).

Ouvindo-os, rapidamente percebi o diferencial daquela música em relação a todos os fragmentos rotulados como reggae que eu já ouvira até então, a saber, que era tocada por uma banda numerosa e impecável, sem “calcanhares de Aquiles” – segundo, portanto, o mesmo pressuposto do conclave de gênios que engendrou Kind of Blue.

Groundation é, assim, a combinação perfeita de um cantor  excepcional, apoiado por excelentes vocais (o baixo desce, em seus solos, a profundezas raras, só frequentadas por pares do calibre de Nilo Amaro), com uma grande seção rítmica composta por um tremendo contrabaixista, percussionistas e tecladistas que se esbaldam nos sons vintage do piano Rhodes e do órgão Hammond e, last but not least, um trio de sopros (trompeta, saxofone e trombone) proficientíssimos em improvisação jazzística. O saxofonista galga patamares coltraneanos.

Sobre a música não me aventuro a falar – exceto para dizer que, dentre as tantas faixa, muitas delas multi-seccionais (tendência rara na maior parte da música popular) e com longos e interessantíssimos trechos instrumentais intercalados aos deslumbrantes vocais, não logrei identificar qualquer groove (ou “levada”) que se repetisse em mais de uma delas – dissipando de pronto, com isto, minha noção previamente adquirida de que todo raggae seria (que me perdõem os aficcionados), por definição, repetitivo, monótono e aborrecido.

É por isto que, depois de ter conhecido Groundation,  jamais ouvirei reggae com os mesmos ouvidos de outrora – razão pela qual compartilho, aqui, a grata descoberta.

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My Favorite Words #2: Fandom (i)

Gosto de palavras intraduzíveis. Fandom, utilizada em língua inglesa para designar tudo o que se refere a fãs e seu comportamento, é uma delas. O tipo e a dinâmica da relação estabelecida entre artistas e suas bases de fãs dizem muito da evolução da economia da música.

Tomemos os modelos contrastantes, de um lado, de celebridades artificialmente produzidas pela indústria e, de outro, o de indies que prezam e preservam suas identidades artísticas sob pena de, na maioria das vezes, abrirem mão de maiores audiências. Em situações limites, i.e., de extrema impessoalidade (circuito de comunicação unidirecional, indiferente à reciprocidade) das celebridades pop diante de suas audiências maciças e anônimas X de franca e intensa interação com um círculo reduzido de outrossim leais e dedicados fãs, tais modos de relacionamento produzem amiúde fenômenos curiosos.

Do intenso fluxo de banalidades diariamente oferecido pelo circo das celebridades, recorto dois fatos recentes a indicativos de que algo estranho pode estar acontecendo na relação entre astros da música pop e seu fãs. Nos dois casos, o que se reveste de um sentido mais profundo, interdito, é um arremesso – ainda que, em cada um deles, de diferentes corpos em direções opostas. No ano passado, uma garrafa d’água foi arremessada em Justin Bieber durante um show em Sacramento; dias atrás, Lady GaGa se atirou aos fãs durante sua apresentação no festival Lollapalooza. Em vão perguntei no Twitter de que modo os dois episódios poderiam estar relacionados. Gestos extremos e violentos, respectivamente, de rejeição pelos fãs e de carência pelo afeto dos mesmos ? Dias depois de postado, o video do ídolo teen sendo atingido pelo petardo foi assepticamente removido do YouTube.

Recentemente, a elevação da popularidade da banda canadense Arcade Fire a um nível sem precedentes entre indies, fruto de uma bem sucedida política de inserção em redes sociais, suscitou de imediato uma discussão sobre até que ponto a conquista por indies de patamares de audiências que foram até então privilégio exclusivo de celebridades da indústria comprometeria suas próprias condições de artistas independentes. Não tenho resposta – até por que não vejo nesta polêmica sentido algum.

Faz, sim, muito mais sentido admirar a magnitude do feito de um grupo de fãs de Radiohead que, em 2009,  gravaram videos de uma apresentação da banda em Praga e publicaram, com consetimento, apoio e promoção da mesma (audio masters kindly provided by the band [!]), magistralmente editado e creditado, o show na internet. Com fãs como estes, quem precisa de gravadoras ou produtores ?

Devo a descoberta do video colaborativo do show da Radiohead em Praga e, com ele, da própria banda – a qual, por décadas imerso numa caverna midiática, eu até então desconhecia – a Bob Lefsetz (@lefsetz no Twitter), um dos melhores cronistas da cena musical pós industrial e cibernética que conheço.

Por estas e outras é que cabe a cada artista, velho ou novo, se perguntar que tipo de fandom deseja cultivar.

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Sobre canções

“Garfield saiu do beco”

Garfield, em Garfield, o Filme

“Ao infinito e além”

Buzz Lightyear, em Toy Story

Uma de minhas principais missões como moderador de um fórum de aprendizagem no curso de licenciatura em música a distância da UFRGS consiste em instigar alunos a restaurar e/ou renovar o significado da canção, tão descaracterizado por seu emprego praticamente hegemônico, ao longo do período de vigência da cultura pop (i.e., dos últimos 50 anos), para designar uma certa categoria de produto musical destinado a um consumo tão maciço quanto efêmero, no interesse da perpetuação de um lucrativo ciclo de substituição de descartáveis.

Neste quadro, é bem provável que muitos, ao buscarem em seus repertórios auditivos canções que lhes sirvam de referências qualitativas para a criação de suas próprias, tenham suas escolhas restritas aos lançamentos comerciais de músicos brasileiros e internacionais promovidos por uma hoje agonizante indústria fonográfica.

Felizmente, ótimas unidades de estudo (aulas virtuais) elaboradas por tutores e professores dão conta de mostrar que, por muito tempo, a situação foi bem diferente. Do ímpeto eminentemente crítico (satírico) e popular dos trovadores medievais, cuja música de praça pública, “destronadora” (impressionante como o ideário bakhtiniano impregna a compreensão da comunicação humana) estava em relação de oposição ao hermetismo textual da polifonia primitiva, sua contemporânea, desenvolvida anonimamente por iniciados no contexto dos mosteiros e catedrais. Da apropriação da tradição lírica popular pelo autor durante os chamados classicismo e romantismo musicais, i.e., de Mozart a Brahms e Schumann e com maior intensidade em Schubert, que compôs mais de 800 (!) lieder.

É quando surge, em plena crise humanística após duas guerras de proporções globais na 1ª metade do século 20 e alavancada por duas inovações tecnológicas (a saber, o fonógrafo e o rádio), a música comercial (resultante, esta, por sua vez, da invenção da “juventude” enquanto mercado insaciável ávido por novidades) e seu peculiar sistema de valores dominado pelo hit parade e pelo culto às celebridades.

Como, então, deixar antever a criação musical não mais como um reduto de especialistas ? A canção não mais como um produto destinado a uma escuta eminentemente passiva por consumidores não iniciados na arte e no ofício de sua criação ?

Nesta hora, é sempre bom contar com a empoderante apresentação Everybody’s a Music Maker, de Dave Haynes, já citada no post anterior a este. Insuficiente, no entanto. Recorrendo, então, como de costume, a meus sempre a calhar Everybody’s a Music Maker, de Dave Haynes, já citada no post anterior a este. Insuficiente, no entanto. Recorrendo, então, como de costume, a meus sempre a calhar marcadores, recupero três histórias capazes de em muito ampliar as fronteiras semânticas do que reconhecemos hoje como canção. Ou, a bem da verdade, somente duas, posto se tratar a terceira não mais do que outra bizarrice da indústria esperneante – razão pela qual a deixo para o final.

Temos, assim, duas canções de profundo impacto ideológico e eminentemente produzidas por não celebridades – ou, dito de outro modo, que não pertencem ao universo midiático ou ao mainstream. Tendo em comum um forte ímpeto de propagação de uma ideia e, em contraste, o fato de que, enquanto uma é produto da visão singular de um autor, a outra é força de um extremamente articulado esforço colaborativo, se pode dizer que ambas pertencem à nova esfera do ciberativismo.

Para entender o contexto da primeira canção, é necessario conhecer o imbroglio protagonizado pela sub-celebridade pop Lily Allen (EMI) em relação à apimentada polêmica sobre pirataria e direitos autorais. Como tal discussão foge ao âmbito deste post, deixo, para ilustração, notícias recolhidas à época do divertido episódio (2009).

Já o contexto da segunda pode ser perfeitamente depreendido das legendas iniciais do video que, cabe creditar, me foi trazido recentemente à atenção por Michael Wesch (Kansas State University), autor de, entre outros, um impressionante ensaio antropológico sobre o YouTube, do qual devo me ocupar num próximo post.

Fiquem, então, com as notáveis canções indie Dear Lily [an open letter to Lily Allen], por John Bull, e Target Ain’t People. Depois, vejam também, por conta do bizarro, notícia sobre a iminente regravação de uma canção da RAF (Royal Air Force) cuja letra é o discurso patriótico proferido por Winston Churchill The Few, origem da célebre expressão “nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos”.

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Comentário a um post de @musicmoon sobre música, rádio e afins

Quando @musicmoon se espantou no Twitter com o fato de que ainda hoje pessoas pedissem a estações de rádio que executassem músicas de sua predileção, lhe sugeri que blogasse a respeito, prometendo comentar. Apenas duas horas depois, Luana publicou esta ótima reflexão sobre a história recente da conquista do controle indivudual sobre a escuta musical. Invejáveis nativos digitais.

Se me furto, no entanto, a comentar em seu blog, é para trazer outra nuance do curioso e aparentemente anacrônico ato de solicitar músicas a estações de rádio, a saber, que o solicitante estaria interessado, muito mais do que em ouvir uma determinada música à qual teria hoje acesso tão mais fácil por outros meios, antes em que outros ouçam a música em questão e, principalmente, em tornar pública sua afinidade com a mesma. Deste modo, tal gesto teria por finalidade a superação da anonimidade intrínseca ao próprio ato de ouvir rádio.

Se isto for, como suponho, verdade, teríamos, então, de um lado, o outrora tão popular expediente de pedir música ao rádio como uma instância de compartilhamento musical eficaz e pioneira, anterior à internet, e, de outro, uma explicação razoável para sua permanência pós-web, já que a audiência atingida por estações de rádio comerciais é presumivelmente bem maior do que a da maioria dos blogs de compartilhamento.

Toda música é investida de relevância por meio do ato de ser compartilhada, posto que, desde os primórdios, não se tem notícia de que alguma tenha jamais existido tão somente para o fruir de seu próprio criador. Ao elegermos um repertório predileto, somos impelidos a reparti-lo, pelos melhores meios ao nosso alcance, tanto com os que nos são mais queridos como com terceiros cuja atenção queremos angariar.

Quando presenteei meus filhos com seus primeiros iPods, tomei o cuidado de escolher pares de fones de ouvido interligados por hastes rígidas, cuja estabilidade mecânica proporciona melhores audições. O mais velho logo me pediu, no entanto, para seu primeiro passeio mais prolongado com amigos da escola, fones do tipo “para ouvir de dois” – deixando claro que, em sua perspectiva, muito mais importante do que poder ouvir música com os dois ouvidos (enquanto ainda não conhece a estereofonia) é poder ouvi-la junto com amigos.

Aos 9 minutos e 20 segundos de sua conferência Everybody’s a Music Maker, David Haynes dá conta brilhantemente da significância conferida a uma música por seu compartilhamento. Vale, todavia, assistir a cada segundo de seus quase 17 minutos.

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Música em Família #2: games, filmes e seriados

Rather than approaching teens and telling them how things should be […], please consider the value of opening up a dialogue. The key to guiding teens – and for that matter, yourselves – is to start by asking questions. Start these conversations when your children are young and help them learn how to evolve. There’s no formula for them either.

Boyd, Danah. 2010. “Making Sense of Privacy and Publicity.” SXSW. Austin, Texas, March 13.

No ano passado, era comum que meus filhos travassem, a caminho da escola, acirradas disputas sobre se ouviríamos música (quase sempre a versão instrumental de Está Chovendo na Roseira pelo trio de Hamleto Stamato) ou o Cafezinho. Foi durante uma performance ao vivo não muito feliz de uma banda pop local no outrossim divertido programa que o mais velho, então com 8 anos, me perguntou se não cabia às estações de rádio escolher as melhores músicas para seus ouvintes. Expliquei-lhe, então, do melhor modo que pude, que a prática mais corrente consistia, ao invés, em tocar o que quisessem que os ouvintes consumissem, em atendimento aos interesses de uma lucrativa indústria. Por acaso tinha comigo na ocasião um CD da Chicago inteiramente dedicado a Duke Ellington que logo reproduzi no carro – de sorte que Caravan (com sua contagiante condução rítmica latina) se tornou, por algum tempo e ao lado de Chovendo na Roseira, um clássico a caminho da escola. Na ocasião, desejaram pela primeira vez possuir aparelhos tocadores de mp3, com os quais me apressei em lhes presentear. Também foi quando o menor, então com 5 anos, levantou a questão, à qual voltaremos adiante, sobre se seria possível baixar e ouvir em iPods músicas de videogames.

Foi, no entanto, somente depois de uma paciente desconstrução de sua noção, adquirida por meio das mensagens publicitárias anti-pirataria inseridas no início de DVDs comerciais, de uma certa natureza criminosa do ato de baixar músicas da web que mergulhamos num de nossos mais lúdicos e educativos campos de troca até hoje. É claro que, de início, não consegui lhes mostrar qualquer música de meu repertório auditivo (prerrogativa que, francamente, exerço muito pouco) sem antes ouvir atentamente toda música que quisessem me mostrar.

Primeiro foram trilhas de filmes e seriados e, é claro, hits de celebridades pop. Confesso o profundo alívio que senti no instante em que deletaram, quase tão rápido quanto baixaram, a música de Camp Rock e das sagas juvenis High School Musical e Crepúsculo, bem como todos os álbuns do então recém morto Michael Jackson exceto Thriller. Foi quando pude constatar que seu interesse por Thriller advinha exclusivamente de seu célebre videoclip. Afinal, toda criança tem uma queda irresistível por zumbis, monstros e vampiros. E dinossauros. Saciada a curiosidade em torno de MJ, descobriram Elvis. De seu breve affair com a música dos dois astros resultaram insights interessantes.

Quando o mais velho quis saber as razões por trás da estranha voz de Michael ao tempo dos Jackson Five, lhe disse tratar-se de uma criança – ao que prontamente me respondeu que mulheres, e não crianças, cantavam daquele modo. Já o menor nunca compreendeu por que Beat It pertencia a Michael se, naquela música, o guitarrista (Van Halen) era de longe muito melhor do que o cantor. Enquanto espero que ele cresça um pouco mais para lhe explicar a insidiosa manipulação pela indústria e pela mídia das audiências de celebridades pop, fui brindado com sua própria explicação, a saber, de que o abismo entre a qualidade musical de Michael e sua proeminência exacerbada se devia, antes, aos maus tratos sofridos em decorrência da obstinação de seu pai por lhe transformar num pop star.

Já a descoberta da mais exuberante vertente de música para cinema adveio da obsessão do mais velho por Tubarão e sua antológica trilha sonora composta por John Williams. Depois de Jaws, foram horas deliciosas que passamos pesquisando, baixando e selecionando os pontos culminantes da música de Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, E.T. e Jurassic Park. De nossa diligente exploração da musicografia de Williams também resultaram achados curiosos.

Quando o mais velho verificou nos créditos de Valiant que sua música também fora composta por Williams, o menor se apressou em declarar que a mesma era sobre esperança e espírito de aventura. E quando um deles reconheceu na música de Tubarão (1975) ecos indiscutíveis daquela de Psicose (19960), fui de pronto levado a baixá-la e a constatar que Williams se valera para a gravação da trilha de Tubarão da mesma Scottish Chamber Orchestra que registrara a icônica música de Bernard Herrmann para Psicose – esta, por sua vez, claramente derivada da linguagem para cordas de Bela Bártok.

E chegamos, como prometido, à música dos games. Para quem, como eu, foi criado alheio ao universo dos jogos eletrônicos, não deixa de ser curioso como uma música sem forma reconhecível, resultante da justaposição de loops controlada pelo avanço aleatório do jogador ao longo das fases de um jogo, possa se constituir, quando descontextualizada, em um objeto de audição autônoma. Como, por princípio, não questiono o que meus filhos querem ouvir (nem mesmo os mais sórdidos remixes no YouTube), espero o momento mais oportuno para lhes auscultar a motivação – que, felizmente, nunca tarda a emergir. Neste caso, disseram que preferiam ouvir a música sem a incômoda concorrência de falas e ruídos dos próprios jogos – percebendo, também, como vantagem a possibilidade do conhecimento de toda a música de um jogo previamente a superação lenta e gradual de cada uma de suas fazes.

Um dos maiores benefícios que percebo na escuta compartilhada com meus filhos de trilhas de filmes, games e seriados deslocadas de seus contextos é que as mesmas, devidamente curadas, se constituem em excelentes subsídios educativos. Comparando trilhas e remixes, compreenderam que a diferentes músicas podem corresponder diferentes estados emocionais. Também foi assim que perceberam a superioridade de música executada por orquestras e outros conjuntos instrumentais ou vocais sobre aquela a que identificam como eletrônica. Ao manifestar a professoras de música mais jovens do que eu o realismo das trilhas orquestrais de certos games que eu supunha sintetizadas, me disseram para que não duvidasse de que tivessem sido, efetivamente, executadas por orquestras.

Depois disso, não me surpreendi nem um pouco quando meu filhos quiseram pela primeira vez voluntariamente ir a um concerto tão somente para ouvir música de John Williams. Acabaram por também ouvir a de Lalo Schifrin para o seriado Missão Impossível. Quando, então, lhes baixei a dos filmes homônimos (com compassos “facilitados” de 4/4), constataram que era bem inferior à do seriado original (em compassos de 5/4). O que, aliás, faz pensar no que esperar, na transposição cinematográfica do seriado Hawaii 5.0, de seu antológico tema de abertura.

Foi ainda durante esse concerto que o mais velho me perguntou se muitas pessoas conheciam a OSPA, pela qual designa genericamente qualquer orquestra. Em sua idade, celebridade ainda lhe parece algo naturalmente importante. Temendo decepcioná-lo, informei que não. Quis saber, então, por que uma música tão boa era menos conhecida do que outras notoriamente piores. Tentei lhe explicar o efeito predatório e nefasto do pop e da mídia sobre a diversidade e a qualidade musical. Ele achou aquela situação muito triste. Naquele instante, lhe convidei para irmos juntos a um concerto para sua primeira audição da Terceira Sinfonia (Eroica) de Beethoven.

* * *

Publicado em 7 de agosto de 2010 no caderno Cultura do jornal Zero Hora, o texto acima ganhou forma a partir de um convite de seu editor Luiz Antônio Araújo para que eu desenvolvesse a ideia originalmente publicada neste blog sob o título Música em Família.

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Eu sigo #2, por conta de #FFs que devo

The fun of Twitter and, I suspect, its draw for millions of people, is its infinite potential for connection, as well as its opportunity for self-expression.

Peggy Orenstein, I Tweet, Therefore I Am. The New York Times, July 30, 2010. (via @hrheingold)

Depois de um hiato de décadas, voltei a ler graças ao Twitter. Não lembro se já contei que, desde que completei 30 anos ainda sob o domínio da palavra impressa, me abstive de quase toda leitura descompromissada – exceto, é claro, aquela por motivos acadêmicos ou de trabalho – até me reconciliar com a mesma já em plena era da literatura digital por ocasião de minha descoberta tardia do Twitter em 2009.

Como rede de curadoria social o Twitter funciona melhor do que seguir feeds de blogs favoritos por uma razão muito simples. Blogs, por mais que dialógicos em seus links e comentários, têm uma vocação muito mais afirmativa da voz subjetivante de seus autores. Já a concisão forçada do Twitter o faz o veículo por excelência para a circulação de ideias, de modo que elencos bem curados de fontes (aqueles que seguimos) se constituem como filtros pessoalmente configuráveis ideais frente ao excesso informacional. Tal modo de uso da ferramenta é formulado por Jay Rosen (NYU) como mindcasting em oposição ao talvez mais convencional lifecasting.

Para ilustrar, é melhor, no entanto, deixar o tom ensaístico por conta do discurso de alguns dos melhores pensadores e pesquisadores que sigo. Gosto de pensar neles como uma academia íntima. Professores que eu quisera ter mas cujos pensamento e realizações me são plenamente acessíveis como conteúdo aberto. Seguindo seus perfis (ou os de seus maiores entusiastas) no Twitter tomo conhecimento instantâneo, como por meio de sentinelas avançadas, de suas últimas produções, bem com das de terceiros a lhes chamar a atenção.

Deixo-lhes, então, uma pequena coleção de minhas melhores referências tuiteiras, para as quais gostaria de ter tido tempo de tecer perfis que lhes fizessem jus.

Danah Boyd, Michael Wesch, Henry Jenkins, Jay Rosen, Jeff Jarvis, Will Richardson, Bud Hunt, Sam Chaltain, Howard Rheingold, Lawrence Lessig, Pierre Lèvy e Clay Shirky estão entre os melhores autores que conheço de textos em língua inglesa sobre cibercultura, educação e jornalismo.

Para notícias e ensaios sobre a cena e a indústria musicais, sigo @musicaos, @RunkRock2, @pitchforkmedia, Bob Lefsetz e @hypebot. Além disso, gosto de ler a crítica musical de @andreegg, @miltonribeiro, @grijo1 e @camilalpav – todos, não por coincidência, blogueiros vizinhos aqui no OPS! que costumo frequentar e comentar.

E quem gosta do Twitter como estação de rádio, experimente programá-la com @Serjones, @EdMotta e @ArthurdeFaria. Mesmo sem gostar de toda música que recomendam, os sigo pela excelente curadoria de vídeos musicais que realizam.

Se for de interesse, conto noutro post como configuro meus filtros para o pensamento da internet brasileira.

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Post in progress: conversa com @Serjones sobre Roberto Carlos, Madonna, Prince, Beatles e Robbie Williams (?); é por estas e outras que estou no Twitter

Tive há pouco a seguinte troca de ideias com @Serjones no Twitter. Os @s iniciais de cada fala indicam seus autores. Já os imediatamente seguintes a estes, existindo, são vocativos.
  • @augustomaurer @Serjones lembra a notícia de ontem desse Robbie Williams tendo que cumprir tournés com medo de palco ? O que aprendemos com MJ ?
  • @Serjones @augustomaurer Robbie Williams é um artista pop talentoso, mas se perdeu
  • @augustomaurer Por seu livre arbítrio ou abuso ? RT @Serjones Robbie Williams é um artista pop talentoso, mas se perdeu.
  • @Serjones @augustomaurer Não soube lidar com o assédio da fama, foi preguiçoso demais para fazer carreira no mercado americano e lançou discos ruins
  • @augustomaurer @Serjones a tragédia geradora do pop é a entrega da identidade em troca do sucesso, num eterno remix do faustiano em Fantasma da Ópera
  • @Serjones @augustomaurer É, mas tem gente que soube lidar melhor com isso. Madonna, Prince e mesmo os Beatles, que são pop
  • @augustomaurer @Serjones Deve ser pq Madonna, Prince & Beatles optaram qdo adultos. É preciso critérios + severos p exposição de astros juvenis.
  • @Serjones @augustomaurer Mas o Robbie Williams também. Tinha a mesma idade que o Prince quando se lançou no Take That
  • @Serjones @augustomaurer O problema é se render à adulação e à indústria do factual – que Madonna operou tão bem – ao invés de lançar CDs consistentes
  • @augustomaurer @Serjones é, o ritmo da indústria derruba qq talento. BTW, RC assinou p + 4 CDs e 3DVDs (via @musicaos). Unlike MJ, vai cumprir ?
  • @Serjones @augustomaurer Defina cumprir. Ele vai continuar naquele ritmo…
  • @augustomaurer @Serjones Minha pergunta foi retórica: o culto a RC e sua indústria devem sobreviver a ele. Há algo tragicômico em astros que envelhecem.
  • @augustomaurer O q renova minha fé no ser humano (with a little help from the web) RT @Serjones Este culto [a RC] já foi beeeeem maior.
  • @Serjones @augustomaurer Eu gosto do Roberto Carlos até o disco de 1977. Depois, perdeu sentido para mim.

Desenvolvo melhor o post quando tiver digerido o impacto de minha primeira experiência nesta modalidade de escrita colaborativa.

Comments welcome.

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Para ouvir Eric Dolphy (i): uma introdução: o contexto perdido: Booker Little

Apreendi com o amigo e mestre em artes blogais Milton Ribeiro que posts caudalosos irremediavelmente  inacabáveis devem, em benefício dos leitores e do próprio autor, ser desmembrados em sucessões de textos menores. É por isso que, após semanas de teimosia, recorto para dar ao conhecimento um fato essencial, conquanto colateral, à compreensão da monumental e relativamente obscura obra musical de Eric Dolphy. Sendo este, assim, o primeiro de (oxalá) vários posts dedicados ao legado musical do gigante da improvisação ao clarone, à flauta e ao saxofone alto, seria de se estranhar a ausência de sua música no álbum que serve de pretexto a este discurso não fossem os fatos de que

  • o tipo de desafio (risco) intrínseco a todo bom jazz advém em grande parte da justaposição em um contexto único do maior número possível de improvisadores exponenciais – numero este  tão improvável quanto maior (teoria do “conclave de gênios” para explicar fenômenos como Kind of Blue); ora, como a lógica da indústria musical desde cedo sempre dependeu da existência de protagonistas (líderes no jazz; “intérpretes” (designação impregnada na própria matriz arrecadatória de direitos autorais (ISRC) !) na música vocal), logo se engendrou também a figura do sideman para designar a figura, em conjuntos populares, dos que improvisam improvisadores desafiadoramente aos líderes. Pode-se, deste modo, dizer que Dizzy, Dolphy, Coltrane, Little e Pixinguinha se constituíam, sob certas circustâncias, em sidemen ideais para, respectivamente, Bird, Nelson, Miles, Dolphy e Benedito Lacerda; e que
  • o semi-ostracismo de Dolphy se deve em grande parte à circunstância trágica de que, durante sua curta existência, os melhores contextos dos quais fez parte sempre lhe escaparam, tanto como fruto de escolhas suas como por razões fora de seu controle tais como a morte prematura do excepcional trompetista Booker Little aos 23 anos.

Comparar música contextualmente é bem mais fácil do que descrevê-la. Não me furto aqui, no entanto, ao exercício reducionista de brevemente distinguir atributos da execução de Little que mais me chamam a atenção. Dono de riqueza timbrística com graves calorosos e agudos brilhantes; articulação claramente definida; afinação impecável (realçada, por sua vez, pela ausência de qualquer vibrato perceptível); fraseado grandemente  inventivo e o uso extremamente parcimonioso de seus amplos recursos técnicos, chegou a ser considerado como o único a desenvolver um estilo próprio diferenciado do de Clifford Brown, aclamado como maior trompetista do hard bop.

Da breve colaboração entre Booker Little e Eric Dolphy resultaram apenas três álbuns de estúdio e um set ao vivo no Five Spot Cafe de Nova Iorque. Além disso, se encontraram em mais um par de ocasiões no conjunto de Max Roach e numa absurdamente subaproveitada banda arregimentada para acompanhar a cantora Abbey Lincoln. Destacam-se, de resto, em sua discografia participações no combo de Max Roach – algumas ao lado de Dolphy – e também na orquestra das sessões que resultaram em Africa/Brass de John Coltrane.

Deixo, no entanto, para um próximo post os melhores frutos da fugaz colaboração entre os gênios de Dolphy e Little para ilustrar aqui a dimensão da arte do trompetista por meio de seu segundo e último álbum solo – o que, em jazz, significa, na maoria das vezes, um quarteto composto por um leading horn frente a um jazz piano trio. Quis a sorte que Little desfrutasse para seu canto de cisne de uma seção rítmica excepcional – com efeito uma das melhores possíveis àquele tempo.

A pequena estatura física de Hoy Haynes (1925-) não traduz sua importância para a cena jazzística, constituída ao longo de uma carreira de mais de 60 anos como líder e ao lado de ícones tais como Thelonius Monk, John Coltrane, Oliver Nelson, Eric Dolphy, Chick Corea, Archie Shepp, Charlie Hadn, Pat Matheny e Dave Holland, entre outros – decorrente de sua enorme capacidade, rara entre bateristas, de tocar em permanente reinvenção melódica (como Elvin Jones !), em perfeita interação contrapontística com os parceiros e sem jamais se sobrepor dinamicamente aos mesmos.

Já Wynton Kelly e Tommy Flanagan pertencem à estreita categoria de melhores pianistas depois de Evans e Monk – o que não é pouco. Kelly foi emblematicamente preterido por Miles em favor de Evans depois de ter registrado, por condescendente gentileza, uma das faixas do Kind of Blue. Eram, como Bud Powell ou Horace Silver, músicos ritmicamente vibrantes – conquanto mais reservados em seus solos de fraseado interessantemente anguloso – e, consequentemente, bastante requisitado em estilos de hot jazz conhecidos como be bop e hard bop.

E, é claro, last but not least, lá estava também Scott LaFaro, que, ao libertar pela primeira vez o contrabaixo da tirania do walking bass (estilo de execução que consistia em suprir sustentação tanto harmônica quanto rítmica por meio de inexorável sucessão de notas de durações iguais), inventou a linguagem contrabaixística do jazz moderno. Tanto que é de se especular sobre quanto tempo teria levado Evans para inventar, por sua vez, o  jazz piano trio sem o inestimável aporte de LaFaro, precoce e tragicamente morto em um acidente automobilístico.

Cabe aqui um parêntesis sobre a impressionante taxa de mortalidade por causas não naturais entre músicos de jazz daquela época, dentre as quais acidentes de carro foram um fator tão decisivo como o abuso de drogas ou mesmo insuficiências endócrinas em muitos casos de early departures. Certainly a post to be written, despite not by me.

No centro desta feliz e improvável constelação, Little pinta e borda com total liberdade, extrema desenvoltura e admirável expressão (preciso me livrar dos adjetivos…) numa jornada de blues (3) e baladas lentas (6), moderadas (4), rápidas (1) e vertiginosas (2), incluindo uma valsa (5) e até uma referência a A Night in Tunisia (1).

Por tudo isso, este é seguramente um dos melhores discos de jazz que já ouvi. Sem exagero algum.

Sou grato a Kingcake Crypt por postar o álbum, ao Captain Crawl por me levar até ele, ao Bernardo por ter me apresentado o Captain Crawl e a Jazzdisco.org pelo melhor repositório de dados discográficos da web.

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Por que celebridades me intrigam

[...] the worst kind of breaking news. The kind of [...] stuff where they publish something every day to satisfy the news cycle. It’s gossip coverage like following movie stars and it distracts me from thinking longer form thoughts

in Clay Shirky: What I Read

Celebridades convém à mídia na medida em que nem sempre há alguma catástrofe ou ato violento digno de nota e, nestes casos, é preciso sustentar a qualquer preço o mito, essencial à própria sobrevivência da indústria jornalística, de que fatos de interesse amplo acontecem incessantemente. Assim, sempre que não há um novo conflito em regiões conflagradas ou um novo desastre ambiental, a grande imprensa recorre à farta coleção de asneiras, disparates e outras irrelevâncias – produzidos, estes sim, diariamente por um elenco de atores, da política, esporte ou entretenimento em sua maioria – os quais acabam por nela adquirir, exclusivamente em virtude do tamanho da audiência (fandom) de seus protagonistas, repercussões espetaculres se considerada a banalidade dos fatos originadores em si.

Meu interesse por celebridades remonta ao divertido imbroglio sobre direitos autorais protagonizado no ano passado por Lily Allen – cantora cuja música, todavia, ainda não me encorajei a conhecer. Data desta mesma época também o episódio em que, inadvertidamente, Sasha teria mexido no Twitter da Xuxa, originando ou reforçando certo consenso de que celebridades geralmente micam em redes sociais. O que se tem, nestes casos, é uma audiência excessiva para conteúdos medíocres. Campo fértil, inclusive, para o surgimento de um novo ofício digital – o de personal networker.

Sempre associei, instintivamente, a qualidade à diversidade e a celebridade à mediocridade. Movido, deste modo, por um interesse… antropológico ?…  pelos micos éticos e linguísticos perpetrados, respectivamente, por Allen e Xuxa no Twitter em 2009, comecei a colher compulsivamente notícias sobre celebridades musicais. Desde então, pude observar certos padrões e relações entre as notícias sobre celebridades musicais e a música efetivamente produzida pelas mesmas.

A primeira e mais óbvia destas constatações é, previsivelmente, o grande descompasso entre a tremenda atenção que celebridades da música pop recebem da mídia (em termos de quantidade de notícias que geram) e o baixíssimo ritmo de sua produção artística. Do conjunto destas notícias, também aprendi que

  • muitas celebridades da música pop – como, por exemplo, Amy Winehouse, Lily Allen e os Rolling Stones – lançam novas obras com frequência dramaticamente menor do que artistas congêneres de épocas anteriores;
  • enquanto artistas pop querem ser célebres quase por definição, muitos roqueiros, jazzistas, sambistas e praticantes de outros gêneros de raiz (em oposição àqueles produzidos) orgulham-se de ser categorizados como indies.

Tudo isso é suficiente para me fazer desejar a existência de filtros anti-celebridades, a fim de permitir, durante o inevitável contato com a torrente informacional, a decantação, no sábio dizer de Clay Shirky, de longer form thoughts. Um dia ainda quero ser um leitor assim.

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Na Casa de Mestre André

I love the air of different planets

Curioso como tantos grandes músicos também são ótimo cozinheiros. Até agora não sei qual foi, de tão boa, a melhor – se a sopa de feijão ao vinagrete apimentado ou a conversa sobre educação musical de crianças e jovens em bandas filarmônicas.

Foi por puro acidente que, ao encerrar dos trabalhos do primeiro dia de um seminário presencial do curso de licenciatura em música a distância da UFRGS em São Félix, Bahia, me vi convidado a desfrutar da ilustrada hospitalidade e notável culinária do sargento de carreira e educador musical por apaixonada vocação André Luiz Rocha, maestro da Sociedade União Sanfelista.

Depois de ajudar a mexer a sopa para que não pegasse no fundo da panela enquanto André atendia alguns alunos, atentos participantes do seminário que eu acabara de inaugurar que chegaram repentinamente (curioso, também, como o espaço acadêmico de tantos conservatórios se confunde com a própria morada de seus mestres), trocamos idéias sobre arquiteturas de formação instrumental, repertório de excelência para bandas de concerto, gestão e políticas culturais e afins. Também fiquei sabendo que

  • a maioria dos integrantes da Sanfelixta ingressa em seu programa de formação por volta de seus 8 ou 9 anos; novos membros com idades em torno dos 13 ou 15 são exceção;
  • o maestro opera em sua casa uma oficina de luteria que recebe para reparos instrumentos de toda a Bahia;
  • festivais de bandas filarmônicas baianas (são dezenas em todo o estado) impõem às entidades participantes restrições a execução de certos gêneros populares, tais como salsa ou mambo, e mesmo a repertórios de banda de concerto; ficando, portanto, tais coletivos musicais “condenados” à apresentação praticamente exclusiva, nestes certames, de dobrados – normatização minimalista (alguém sabe explicar em nome de que ?) que muito faz lembrar certos rigores absurdos (posto que interpostos à  inexorável evolução cultural) do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

Depois do café e antes de me levar até a pousada em que estou hospedado, André me mostrou o prédio histórico (como a maioria em São Félix e, na margem oposta do rio Paraguassu, em Cachoeira) onde funciona, desde 1916, a filarmônica – bem como uma casa gêmea vizinha que lhe foi doada e que hora aguarda restauração e adequação a suas atividades artísticas e pedagógicas.

Depois, caminhando nas orlas das duas cidades e na ponte que as divide para controlar meu diabetes e melhor digerir tudo o que acabara de conhecer, celebrei a descoberta de que São Félix é espantosamente musical para um lugar de 15 mil habitantes à margem de uma travessia ferroviária numa região montanhosa ouvindo, também pela primeira vez, City Movement (glorious jazz, magnificent winds !), de Winton Marsalis, recomendado pelo Milton e por seu filho Bernardo, já há algum tempo baixado e adormecido em meu HD.

Me impressiona como mesmo em contextos de qualidade abundante e acesso universal tais como a web por vezes ainda temos, paradoxalmente, tão pouco tempo e/ou atenção para o que ainda não conhecemos. Teríamos perdido a capacidade de nos surpreender, ou teriam sido, ao invés, nossas expectativas que caíram a níveis sem precedentes em razão de repetidas experiências auditivas frustrantes anteriores ?

Preciso me lembrar de compartilhar City Movement com o pessoal da Sanfelixta. Também preciso me lembrar de, noutra feita, trazer uma câmera para documentar melhor a aventura. Serendipity at its best.

Amanhã ouvirei pela primeira vez no seminário um quinteto de clarinetistas formados na filarmônica – três dos quais alunos do programa de licenciatura em música a distância que me trouxe até aqui. As expectativas, as melhores.

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