No último domingo, o salão de atos da reitoria da UFRGS esteve lotado de pessoas que queriam ouvir música de videogame tocada pela OSPA. Instantes antes do momento mais esperado, se acenderam na platéia (fato inédito) luzes que denunciavam o acionamento de dezenas de câmeras, sem contar telefones celulares, a indicar que aquela performance logo estaria na internet. Passados apenas 3 dias, constato que pelo menos quatro daqueles videos estão no youtube, com um número de visualizações igual ou superior ao de ouvintes presentes ao concerto. Já um único video de uma execução desta peça em 2010 foi mais visto do que todos os videos da reapresentação da mesma no último domingo juntos. Não há como ignorar fatos assim. Com efeito, foi recentemente lançado o primeiro álbum de uma artista que chegou ao prestigioso selo fonográfico Deutsche Grammophon não por força da bênção de seus altos executivos ou produtores mas, tão somente, por sua impressionante popularidade em redes sociais.
Concertos sinfônicos, salvo quando estrelados por alguma celebridade de certa magnitude, são via de regra ignorados pelo colunismo cultural. Não neste caso. Um simples deslocamento do repertório habitual, tido por muitos como elitista, para um setor da cultura de massa contemporânea tradicionalmente ausente em salas de concerto foi suficiente para desencadear uma onda de interesse midiático, sem precedentes em relação a espetáculos com entrada franca, que resultou em matéria de capa no caderno cultural do principal tablóide local – onde não havia, pasmem, qualquer menção ao fato de que a OSPA também executaria, na mesma ocasião e pela primeira vez em sua história, movimentos de uma sinfonia de Carl Nielsen, autor de alguns dos melhores esforços empreendidos no gênero ao longo de todo o século 20.
O comportamento da mídia, neste caso, não chega a surpreender. Chama, no entanto, a atenção o destaque conferido a duas posições qualificadas contrastantes (como reza a cartilha do decoro jornalístico), sustentadas por dois compositores, ambos professores do Instituto de Artes da UFRGS, um deles enaltecendo e o outro deplorando tal sorte de concessão ao que, por hora, é suficiente designar por “gosto popular”.
Artistas de qualquer época encaram forçosamente, mais cedo ou mais tarde, o dilema entre a autonomia do autor e a aceitação pública. Deste modo, questões como até que ponto pode a arte prescindir do reconhecimento e da aprovação de um público e se a mesma deve ou não, em decorrência, almejar à popularidade ocupam sempre um lugar central no ideário das mentes mais criativas. Emblemáticos deste estado de coisas são, de um lado, o célebre manifesto Who cares if you listen, no qual o compositor Milton Babbitt defende o individualismo exacerbado e hermético autorizado pela recusa praticamente generalizada, entre muitos de seus pares mais proeminentes durante a primeira metade do século 20, às práticas comuns da música tonal – o qual pode ser considerado, sem nenhum exagero, como marco inaugural da era da composição acadêmica (a fascinante trajetória da patronagem, desde a religião e o estado, passando pela burguesia e culminando na academia) – e, de outro, seu corolário imediato, por George Rochberg, em prol de um futuro musical com sons mais palatáveis.
Se hoje a universidade acolhe, segundo o cânone de Babbitt, compositores de laboratório, já as orquestras sinfônicas, estes dinossauros cujo lugar a contemporaneidade parece ainda não ter descoberto, não conseguem almejar a qualquer permanência sem o cultivo cada vez mais dedicado de uma audiência interessada. Surgidas na aurora da civilização urbana e estritamente vinculadas à economia do espetáculo, tratam de se adaptar às velozes, radicais e, até certo ponto, imprevisíveis transformações recentemente sofridas pela indústria do entretenimnento. São muitas as variáveis em jogo. Presencialidade. Autoria. A obliteração da fronteira entre o artista e o público. Impossível enumerá-las em sua totalidade.
Sem bússola nesta tempestade, conjuntos sinfônicos empreendem então esforços desesperados em nome da manutenção de vínculos cada vez mais tênues com ouvintes minguantes, incluindo iniciativas que variam entre as mais conservadoras – tais como executar, ano após ano, as mesmas obras já consagradas pelo público ou, em menor intensidade, explorar enciclopedicamente nichos (muitas vezes acertadamente !) menos freqüentados do repertório de concerto ou, ainda, fomentar a composição de música nova – e outras de caráter mais experimental que consistem, na maioria das vezes, em trazer para as salas de concertos públicos e objetos sonoros que tiveram, historicamente, pouca ou nenhuma afinidade com a plataforma sinfônica.
O que é reconhecido como música é um atributo exclusivo de cada época ou cultura. É comum os mais velhos (tachados, nestes casos, como elitistas) desdenharem do que ouvem os mais moços, quase sempre com base num empobrecimento historicamente perceptível e tecnicamente demonstrável dos objetos artísticos – comportamento que, no entanto, não resolve o problema. À nova rasura que sucede à velha complexidade, é preciso, então, responder com novas relações almejando, com sorte, a novas e belas complexidades.
Menos, Augusto, menos. Em que pese a índole otimista do parágrafo acima, não cabe a mim nem a mais ninguém produzir receitas mas, tão somente, elevar o nível de tolerância à perplexidade face a um caos já instaurado para nele lograr reconhecer novos cenários que, queiramos ou não, chegaram para ficar.
Quando, dias atrás no facebook, iniciei tais ruminações, me declarei inclinado a achar razoável se, depois de versões orquestrais para músicas de videogame, viéssemos a tocar fantasias sinfônicas sobre, por exemplo, jingles publicitários – pois seria, a meu ver, muito mais honesto utilizar equipamentos sinfônicos, públicos ou privados, para tocar realizações artísticas de música composta explicitamente para promover mercadorias – como, aliás, os pregões de feirantes dos quais os primeiros polifonistas se apropriavam para compor complexos motetos – do que, como no caso de quase todo pop (que não reste, aqui, qualquer dúvida sobre estarmos diante de uma franca e estrondosa provocação !), mercadorias promovidas como música.











